MICRODEBATE SOBRE JEAN-LUC GODARD

Guará em São Paulo. Foto: Luiz Nazario

CARTOLA SEM COELHO

Paulo Henrique Silva   

Enquanto o professor Luiz Nazario acusava os cineastas europeus de buscarem imitar, em vão, o cinema de Hollywood, o ator Guará Rodrigues não poupou adjetivos negativos para os filmes da indústria. “É tudo uma m…, um lixo, o que eles fazem é o espetáculo pirotécnico”, defendeu. Menos radical, José Tavares de Barros concedeu para si o prêmio de “Saco de Ouro”. “Gosto de todos os tipos de filmes, até uma fita de ação como A outra face, de John Woo”, explicou. Fábio Carvalho preferiu aqui não se manifestar. Confira o bate-papo realizado após a sessão do filme JLG por JLG – Auto-retrato de dezembro, de Jean-Luc Godard:   

LUIZ NAZARIO: O Godard continua colocando na tela um monte de livros, quadros, filosofias, frases feitas, enfim, ele não modificou sua linguagem. Continua fazendo o mesmo cinema que fazia nos anos 1950-1960. É uma falta de criatividade do artista; Godard não se adaptou ao tempo.   

GUARÁ RODRIGUES: Todos os grandes cineastas fizeram o mesmo filme a vida toda, com a mesma equipe e os mesmo atores. Alfred Hitchcock e Howard Hawks fizeram isso.   

LUIZ NAZARIO: O estilo é o mesmo, mas será que o inimigo continua sendo o mesmo dos anos 60?   

JOSÉ TAVARES DE BARROS: Coerência há, mas concordo com Nazario que os tempos mudaram e Godard se repete. Na verdade, só fui movido a ver JLG por JLG por causa desde debate, pois, do contrário, ia esperar sair em vídeo.   

LUIZ NAZARIO: Acho que há uma diferença entre ver o mesmo filme prazeroso, agradável, bonito e fazer durante 30 anos o mesmo filme chato. JLG por JLG é crepuscular. Tem aquelas pinturas crepusculares, a luz de vela, o inverno, o amarelo da paisagem que é despovoada. É algo próximo da morte. Parece que Godard está esperando a morte.   

GUARÁ RODRIGUES: Eu me divirto mais vendo um filme de Godard do que outra coisa. Saio mais leve do cinema, é como ler um bom livro.   

JOSÉ TAVARES DE BARROS: Mas vejo uma grande diferença entre os outros filmes de Godard e JLG por JLG. Este último é uma tentativa curiosa dele mesmo esmiuçar, de fazer uma autocrítica. É igual a uma cartola de mágico, só que dela não sai nada.   

LUIZ NAZARIO: Isso é verdade. Você sempre vai a um filme de Godard esperando alguma coisa e ele nunca tira esse coelho da cartola.   

Fonte: SILVA, Paulo Henrique. Cartola sem coelho. Debate sobre o filme  JLG por JLG – Auto-retrato de dezembro, de Jean-Luc Godard, com José Tavares de Barros, Guará Rodrigues e Luiz Nazario. Jornal Hoje em Dia, Belo Horizonte, Caderno Cultura, p. 1, 23 set. 1997.

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