O QUE ACONTECEU A HELENA IGNEZ?

Ensaio publicado no livro À margem do cinema (1986): revisto e atualizado.

Helena Ignez em A Mulher de Todos (1969), Foto de Peter Overbec.

Helena Ignez em A Mulher de Todos (1969), Foto de Peter Overbec.

Certa vez, Nelson Rodrigues proferiu um oráculo: “Uma Helena que também é Inês dá o que pensar. O nome duplo faz supor uma predestinação. Que vínculo tênue, misteriosíssimo, pode ligar a artista da capa a dois símbolos femininos eternos? Não é por acaso, não é por capricho, que uma mulher se chama, ao mesmo tempo, Helena e Inês. Há um apelo e repito: um apelo obsessivo e mortal em cada um desses nomes. Temos Helena que foi amada por um povo, e temos Inês, que foi amada por um homem. Assim, a artista da capa leva na carne e na alma dois nomes tristes – como um presságio, como um destino”.

O oráculo pode ser um exagero típico de Nelson Rodrigues, mas o fato é que Helena Ignez – uma atriz maravilhosa, lançada por Glauber Rocha em O pátio (1959) e que deu vida a toda uma fase do cinema brasileiro – sofreu uma crise, abandonou a carreira em 1975 e passou a percorrer um estranho roteiro. Esse roteiro começa em Nova Iorque, passa por Bari e Berlim, continua pelo Marrocos e por outros países do Saara, chega a Paris e termina na Bahia. Por que ninguém, por tantos anos, se interessou por seu destino? Escassas e desconexas eram as informações que nos chegavam sobre a musa do Cinema Novo que se tornou, depois, a musa do Cinema Marginal.

Um texto de Glauber Rocha assim a definiu: “Intelectual de classe média, estudante de Direito e de Teatro, casada com Glauber Rocha, cronista social e animadora de TV, candidata derrotada a Miss Bahia, bonita, elegante, loura, fuma, não sabe dirigir, úlcera, ligeiramente nervosa, radical com a mediocridade, saudosa da burguesia do Yatch Baiano, que largou para casar comigo – artes, letras, teatro, jornalismo, cinema, televisão, política. Nasceu Paloma [Rocha], e Helena não trabalhou em A cruz na praça, não porque estivesse grávida, mas porque não tinha papel para mulher”.

Em 1966, Helena Ignez estava no auge de sua beleza e de sua carreira. Num recorte de jornal desse ano, li uma breve declaração da atriz: “Sou gulosa, gosto de amor e das viagens. Também gosto de botar o nariz onde não sou chamada… O Cinema Novo é a minha paixão”. Ela lançava, então, o “terno de minissaia”, que chamou a atenção dos jornalistas que a receberam nas redações para ouvi-la falar de seu novo filme: O padre e a moça (1965), de Joaquim Pedro de Andrade. Cobiçada por Glauber Rocha, este a seduziu no alto de um morro. Nessa cena cinematográfica da vida real, presumivelmente patética, o cineasta enlaçou a atriz, estimulado por um pensamento que aumentava seu gozo: “Eu possuo a mulher mais desejada da Bahia!”.

Assim, de mulher amada por um povo, Helena Ignez passou a mulher amada por um só. Mas o desejo de Glauber por Helena alimentava-se do desejo coletivo, de uma soma abstrata de outros desejos masculinos. Não era um puro desejo pelo corpo de Helena, mas um desejo intermediado pelo mito potente da mulher sex-symbol. Contudo, Helena Ignez, que se apaixonava pela inteligência e só depois pelo corpo de seus homens, não podia satisfazer-se em ser amada como um símbolo. E concebeu a ideia da traição.

Abandonou Glauber Rocha e tornou-se a mulher de Julio Bressane e, depois, de Rogério Sganzerla, a quem, desde então, se manteve fiel (ela teve com Sganzerla mais duas filhas: Sinai Sganzerla e Djin Sganzerla). Já casada com Rogério Sganzerla, Helena Ignez foi “apresentada” por ele ao Pasquim como uma “revelação” no papel da bela favelada Ângela Carne e Osso em seu novo filme, A mulher de todos (1969), numa entrevista que começava com o jovem cineasta atacando o Cinema Novo como um movimento ultrapassado e reacionário. Helena tinha ido fazer a entrevista “disposta a mentir bastante”, mas logo desistiu, afirmando que todos aqueles jornalistas já sabiam de sua vida através de Luiz Carlos Maciel, e que seria inútil mentir…

Amada por Glauber, símbolo do Cinema Novo, como um símbolo sexual, Helena Ignez, ao tornar-se mulher de Júlio Bressane e, depois, de Rogério Sganzerla, símbolos do Cinema Marginal, realizou uma perfeita traição simbólica, que atraiu a vingança ideológica dos seguidores de Glauber Rocha. O ódio assassino dos sacripantas recaiu sobre a ex-musa do Cinema Novo[1], agora “vendida aos inimigos do cinema brasileiro”[2]. Uma batalha na guerra entre os machos do Cinema Novo e do Cinema Marginal teria sido então travada no corpo frágil de Helena Ignez. Tarde da noite, uma aranha negra [Guará, claro] me contou essa história de horror:

“Depois de separar-se do Glauber e tornar-se, primeiro, mulher do Bressane e, depois, do Sganzerla, Helena Ignez começou a ser difamada pelos ideólogos do Cinema Novo. Eles espalharam a história de que Helena Ignez tinha um nariz muito grande e que, com aquele nariz, ela nunca seria uma estrela. A história chegou aos ouvidos de Helena que, ao invés de rir dela, começou a olhar-se mais ao espelho. Aquilo ficara na sua cabeça. Seu nariz passou a ser o centro das atenções. Até que, tomando uma decisão radical, ela se submeteu a uma cirurgia plástica. Mas a operação não foi bem sucedida: depois de cortado, seu nariz ficou pequeno. Aqueles mesmos ideólogos começaram, então, a espalhar a história de que Helena tinha um nariz muito pequeno e que, com aquele nariz, ela nunca seria uma estrela…”

A crer nessa história, Helena Ignez pagou caro a aventura da traição: teve a face mutilada, a carreira cortada. Foi difamada e esquecida: ficou enterrada viva de 1975 até 1986. Em 1983, contudo, uma amiga enviou-me o programa de O belo indiferente, o monólogo de Jean Cocteau montado no Teatro Castro Alves, na Bahia, que trouxe Helena Ignez de volta ao palco, por apenas três dias. O folheto revelava que Helena dedicava-se ao estudo do Tai-Chi-Chuan e fazia vagas referências a buscas místicas e espirituais.

Três anos depois, Helena Ignez ressurgiu em Nem tudo é verdade (1986), de Sganzerla, que mais tarde a escalou para outro papel em Perigo negro / Oswaldianas (1992). Helena ganhou em seguida um papel pequeno na minissérie Tereza Batista (TV Globo, 1992); e, com uma crueldade a Billy Wilder – ou a Robert Aldrich – Guilherme de Almeida Prado fez a estrela underground ressurgir na tela como uma perigosa assaltante, que era logo assassinada, em Perfume de gardênia (1992). Em 1997, seguiram-se participações nos programas de TV Terra e Você decide. Anos depois, Helena Ignez assumiu a direção do curta-metragem A reinvenção da eua (2003), a partir de uma instalação de arte pública de Vito Acconci em São Paulo.

A morte de Sganzerla, em 2004, parece ter liberado Helena Ignez de algumas amarras: ela se sentiu segura para seguir sozinha e afirmar-se não apenas como herdeira legal do marido cineasta, conservando e divulgando sua obra, mas também como sua herdeira artística, tornando-se a “nova Sganzerla” do cinema brasileiro – dirigindo filmes dentro da estética que ele criou e que ela tanto amava, e acabou por assimilar.

Em sua produtora, a Mercúrio, Helena Ignez finalizou A miss e o dinossauro (Brasil, 1970-2005) para a homenagem a Sganzerla no Festival de Turim: ela registrara em super-8 o churrasco de despedida dos cineastas e atores da Belair – a produtora criada por Bressane e Sganzerla que, entre fevereiro e maio de 1970, realizou sete filmes, todos interditados pela censura da época – um dia antes de partirem para o exílio.

A atriz-diretora lançou, em seguida, Canção de Baal (2006), a partir da primeira peça de Bertolt Brecht, onde Baal é um poeta violento de apetite insaciável e disposto a corromper todos à sua volta: na adaptação de Helena Ignez, o herói é “o intelectual anárquico que se recusa a ser enquadrado”. Neste musical autoral a Sganzerla, com uma câmera que cria visualidades bizarras, o outsider Baal, vivido pelo artista multimídia Carlos Careqa, é um fracassado que todos adoram e que não se vende em troca da ascensão social. O filme é uma paródia sobre o machismo, “esse cancro da sociedade”. Produção caseira (realizado na fazenda de Helena Ignez em Bragança Paulista), o filme foi premiado no Festival de Trieste (Itália). Há, sem dúvida, uma exaltação crítica de Glauber na figura de Baal.

Helena Ignez atuou no papel de uma bruxa em A encarnação do demônio (2008), de José Mojica Marins e, em seguida, lançou Luz nas trevas: a revolta de Luz Vermelha (2010), a continuação de O Bandido da Luz Vermelha, a partir de um imenso roteiro no qual Sganzerla trabalhou de 1992 a 2004. Filmá-lo tornou-se a obsessão de Helena Ignez. O papel de Luz Vermelha (Paulo Villaça) foi assumido por Ney Matogrosso: trinta anos depois de aterrorizar a burguesia paulistana, descobrimos que o Bandido fingira sua morte, permanecendo vivo na prisão, onde lê Kant e Nietzsche nu em pelo. Ele descobre que possui um filho, chamado Tudo ou Nada (André Guerreiro Lopes), ligado à jovem Jane (Djin Sganzerla) – um casal que revive a relação tumultuada que Luz Vermelha mantinha com Janete Jane. Helena Ignez, que dirigiu o filme com Ícaro Martins (que reclamou de sua exclusão nas premiações em festivais, embora o filme seja claramente uma produção da família Sganzerla), também desempenha o papel de Madame Zero.

Mais recentemente, a própria Belair ganhou um documentário que recupera seus mitos (Bressane, Sganzerla, Helena Ignez, Maria Gladys e Guará): Belair (2001), de Bruno Safadi e Noa Bressane. Renascida das cinzas, podendo rodar o mundo com os filmes restaurados de Sganzerla e tendo seus próprios filmes premiados e a carreira homenageada no Festival de Fribourg, na Suíça, Helena Ignez superou o destino trágico ao qual o delírio político de um grupo de machistas do cinema brasileiro quase a fez sucumbir: a musa do Cinema Novo e do Cinema Marginal dos anos de 1950-1960, desencarnada das velhas guerrilhas de seus homens pela amizade dos filhos mistos dos dois grupos, pode sentir-se, com os elogios que passou a ganhar da crítica, novamente amada.


[1] Nos filmes A grande feira (1961), de Roberto Pires; Assalto ao trem pagador (1962), de Roberto Farias; O grito da Terra (1964), de Olney São Paulo; e O padre e a moça (1966), de Joaquim Pedro de Andrade.

[2] Para os quais ela atuou em: Cara a cara (1967), de Júlio Bressane; Os marginais (1968), de Moises Kendler e Carlos Alberto Prates Correia; O engano (1968), de Mario Fiorani; O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla; Um homem e sua jaula (1969), de Fernando Campos e Paulo Gil Soares; A mulher de todos (1969), de Sganzerla; A família do barulho (1970), de Bressane; Barão Olavo, o horrível (1970), de Bressane; Copacabana mon amour (1970), de Sganzerla; Cuidado, Madame (1970), de Bressane; Sem essa, aranha (1970), de Sganzerla; Os monstros de Babaloo (1971), de Elyseu Visconti; Um intruso no paraíso (1973), de Heron D’Ávila; e Carnaval de lama (1975), de Sganzerla.

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