FUNCIONÁRIO DO DEPARTAMENTO DE CRIAÇÃO DA HUMANIDADE

 

Guará e Presidente Itamar Franco no Palácio do Planalto

MARCELO FIÚZA

Jornal O Tempo, Belo Horizonte, 10 out. 2004. Reportagem de capa do Caderno Magazine.

Eu não sou mais eu

Movido por idéias, o ator, diretor e roteirista Guará Rodrigues tem sua obra reunida em DVD e prepara lançamento de livro autobiográfico batizado de ‘Memórias de um Hóspede’

Há algumas semanas, o ator Guaracy Rodrigues, o Guará, participou com o diretor Neville D’Almeida de um seminário sobre cinema marginal no Centro de Cultura Belo Horizonte. Na saída, descendo a Rua da Bahia, parou num dos botecos. Então, entrou um jovem negro com um objeto que parecia ser uma metralhadora. “Levantei os braços me rendendo, mas era um cavaquinho estilizado, ele tocou umas músicas, com letras próprias, logo me convidou para morar na casa dele, onde tem um estúdio, toca todo tipo de instrumento e grava. Ninguém conhece Ronaldo José de Souza, vou fazer um vídeo digital sobre esse cara”, garante o ator belo-horizontino.

E foi a organização desse mesmo curta-metragem que trouxe novamente Guará de volta à cidade, na última semana, quando conversou com a reportagem novamente no Centro de Cultura Belo Horizonte. Por mais insólito que pareça o projeto, tem tudo a ver com Guará Rodrigues, figura emblemática do cinema brasileiro, partícipe de mais de uma centena de filmes, seja como ator, diretor ou roteirista.

Não é fácil encontrar com Guará, mesmo porque, há muito ele optou por não ter residência fixa. Quando na terra natal, hospeda-se na casa onde foi criado, em Santa Tereza. Nos últimos anos, passou a maior parte do tempo no Sul da Bahia, mas é presença comum em São Paulo, Rio de Janeiro e em diversas cidades da Europa e da índia. Uma peregrinação que começou aos 12 anos, quando viajou pela primeira vez, para Ouro Preto.

Como escreve o doutor em cinema Luiz Nazario, que prepara o lançamento de um DVD e de um livro biográfico inédito sobre o ator, Guará conviveu na Paris da Nouvelle vague com François Truffaut e Jean-Luc Godard, foi ao cinema na Roma da “dolce vita” com Maria Schneider, virou junkie em Amsterdã nos anos de 1970, acompanhou Hitchcock nas filmagens de Frenesi em Londres – quando gravou também, como protagonista, Memórias de um estrangulador de loiras, de com Júlio Bressane. Fez nessa época a rota das drogas, entre Holanda e Índia, com uma câmera e um gravador, quando colheu imagens para o que considera o primeiro road-movie brasileiro, Boom Shankar – louvação que dá o iniciado ao inalar o cone de haxixe aceso.  “Fui para a Europa nos anos de 1970 com todos os filmes da Belair debaixo do braço, fugindo do regime militar”, diz o ator, sobre os longas da produtora de Julio Bressane e Rogério Sganzerla.

Pátria do cinema

Pouco desse material sobreviveu ao estilo de vida despojado de Guará. “Eu sou um cineasta, não faço TV e teatro. No cinema faço quase tudo, escrevo, dirijo, atuo – só não fiz fotografia até hoje porque tenho uns amigos fotógrafos que são melhores”, afirma. A vida na estrada tampouco é um problema. “Eu não sou mais eu, minha casa não é minha casa. Minha bagagem é tudo que cabe na mala Não tenho quadros do Renoir e Rembrandt porque não cabem na bagagem. Quem sou? Guará é silêncio”,  divaga o artista, que se diz cidadão da “pátria do cinema”. “Quando chego em qualquer lugar do mundo, vou logo procurando o pessoal que faz cinema e rapidamente estamos falando a mesma língua”, conta, sobre uma paixão que começou menino ainda, quando freqüentava sessões de filmes de guerra no Cine Santa Tereza para policiais militares. “Eu era uma das poucas pessoas em Belo Horizonte que assinava a Cahiers du Cinéma”.

Não é à toa que o livro autobiográfico que escreveu, entre 1985 e 1995, se intitula Memórias de um hóspede. “Queria ter dinheiro para editar esse livro com luxo e muitas fotos. Já trabalhei muito e queria ser recompensado. São memórias romanceadas das viagens, estou sempre hospedado, seja na mansão do governador, seja no barco de um pescador solitário”, diz esse leitor contumaz que costuma deixar como espólio na casa de seus anfitriões lotes de livros e, mesmo, latas de filme – a única cópia de Boom Shankar foi encontrada em 2000 na casa de um amigo paulista, em péssimas condições.

ARTISTA SEGUE FILOSOFIA NEO-HIPPIE

MARCELO FIUZA

Jornal O Tempo, Belo Horizonte, 10 out. 2004, Capa do Caderno Magazine

Na última terça feira, antes da entrevista, Guará Rodrigues lia Orientalism, de Edward Said, mas sua recente obsessão é o turco Ohran Pamuk., autor de New Life, de onde o ator pretende tirar o roteiro  de seu próximo filme. “É a história de um livro que muda a vida da pessoas com as palavras escritas, um romance que vou filmar no ano que vem”, diz. Outro projeto premente será na Bahia, onde uma amiga deve financiar um documentário sobre a criação de búfalos. “Vou misturar imagens de filmes de John Ford e Howard Hawks”, diz. Antes, porém pretende remontar Boom Shankar,  com novas imagens. “É a história das aventuras de Marco Pólo fragmentada, como os atores  Célia Messias e Luiz Fernando Guará ainda estão vivos, vou refilmar”, conta.

Se tantos projetos vão se concretizar, ninguém sabe, mas o fato é que a despeito de tantas idas e vindas, Guará mantém profícua produção. Na terça-feira que vem estréia em rede nacional – com exibição pela Rede Minas – O homem que botava ovo, curta de Rafael Conde no qual participa. Ainda inédito no circuito comercial, está O general, de Fábio Carvalho, com o ator como protagonista. De Thiago Mata Machado, participou do longa já em fase de finalização O quadrado de Joana. Filmou com Sérgio Bernardes Tamboro. De José Luiz Peixoto, participou da co-produção entre Cuba, Brasil e Espanha, Prazo de validade, um media-metragem. E de Rodrigo Amitem, atuou em Imagem mon amour, rodado na Praça Mauá, no Rio de Janeiro. Nazario produziu com ele Prisioneiros do Planeta Ornabi, no ano passado.

Produções inéditas e sem exibição. “Nunca faço nada pensando no que o público vai pensar ou onde a obra vai ser distribuída. As coisas pitam na vida, sigo essa filosofia neo-hippie. Sou um intelectual movido por idéias, tive a sorte de pertencer ao departamento de criação humana”, explica Guará.

LUIZ NAZARIO ORGANIZA TODA A FILMOGRAFIA DE GUARÁ RODRIGUES

MARCELO FIUZA

Jornal O Tempo, Belo Horizonte, 10 out. 2004, Caderno Magazine, p. 4.

Luiz Nazario define Guaracy Rodrigues como um personagem marginal do cinema brasileiro que percorre a história dessa arte desde os anos de 1960 até hoje: “Ele viveu todas as fases pelas quais esse cinema passou sempre de forma marginal, e isso me fascina”, conta o catedrático, professor-doutor da Escola de Belas Artes da UFMG, que organizou toda a filmografia do ator dentro do projeto Guará, o criminoso imaginário. “Guará é um ator que não é ator, ele vive os papéis e se confunde com os personagens, ele jamais fez teatro ou TV porque gosta desse universo cinematográfico e se confunde na medida em que a própria vida é um filme. Não é uma vida normal, é imaginária, ele não tem casa, bens ou propriedades: ele vive em casas de amigos, representando todo o tempo diversos papéis. Ele criou um personagem, o Guará, que vive tanto na realidade quando no cinema”, explica Nazario.

“Guará, o criminoso imaginário” é também o título de um ensaio escrito pelo estudioso em 1982, publicado na primeira versão do livro Da natureza dos monstros. “A partir desse livro, desenvolvi a filmografia completa do Guará, que não parou de trabalhar. No atual projeto, atualizo essa filmografia, amplio o ensaio e acrescento textos do ator. Há também entrevistas que fiz ao longo dos anos com ele e também o livro inédito, Memórias de um hóspede, além de todos os roteiros dele”.

Segundo Nazario, será necessário reescrever o livro autobiográfico: “Ele não é escritor, tem uma narrativa fragmentada, o conteúdo é muito interessante e vamos publicar tudo no mesmo pacote, juntamente com a fortuna crítica de Guará”, diz, referindo-se a uma seleção de reportagens e notas publicadas em jornais sobre o ator. O professor, que conta com o auxílio de um aluno bolsista financiado pela FAPEMIG para a tarefa, pretende concluir o projeto até dezembro de 2005: “Vamos publicar o livro com o DVD. Se entrarmos em alguma lei de incentivo, será uma edição de luxo, com fotos. Caso contrário, apenas com textos.” O DVD deve conter dois filmes que Nazario produziu com Guará recentemente, Sexo-verdade (2001) e Prisioneiros do Planeta Ornabi (2003), além de A diabólica (1985), filmado em Super-8. Guará participou também de outro projeto de Nazario, focado na obra do cineasta italiano Píer Paolo Pasolini, cujas imagens também serão incluídas no dito DVD.

CARREIRA

Confira alguns filmes do ator Guará Rodrigues (organização de Luiz Nazario).

1965: As aventuras de Guilherme Tell, de Carlos Alberto Prates.

1968: Jardim de guerra, de Neville d’Almeida.

1969: Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade.

1970: Piranhas do asfalto, de Neville.

1971: Memórias de um estrangulador de loiras, de Júlio Bressane.

1977: Anchieta José do Brasil, de Paulo Sarraceni.

1980: Eu te amo, de Arnaldo Jabor.

1982: Tabu, de Bressane; Rio Babilônia, de Neville.

1988: Luar sobre Parador, de Paul Mazursky.

1999: Brás Cubas, de Bressane.

1991: Matou a família e foi ao cinema, de Neville.

1995: Miramar, de Bressane.

1996: O lobo Guará, de Fábio Carvalho.

1997: A hora vagabunda, de Rafael Conde.

1999: Cansa-te nobremente!, de Guará Rodrigues.

2001: Samba-canção, de Conde.

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