GUARÁ, O CRIMINOSO IMAGINÁRIO

Guará em São Paulo. Foto: Luiz Nazario.

Este ensaio foi publicado na primeira edição de meu livro Da natureza dos monstros, Edição do Autor, São Paulo, 1983, p. 35-44. O ensaio incluía uma filmografia parcial, que suprimi aqui, por estar então ainda incompleta e porque devo publicar em breve a filmografia completa de Guará. O texto foi também revisto e acrescentado de alguns parágrafos.

O crime é a pedra lançada no charco estagnado. O detetive faz o diagnóstico. O seu trabalho é estudar as rugas à superfície da água e descobrir a pedra que a perturbou.

Alfred Hitchcock

Numa sociedade criminosa é preciso ser criminoso.

Marquês de Sade

Em 1979, reconheci, durante uma pré-estréia, uma sombra que me era familiar: barbudo, vestindo uma camisa florida, lembrava-me o ator de Memórias de um estrangulador de loiras. Na noite seguinte, tornei a encontrá-lo no lançamento de um disco. “Você não é o estrangulador de loiras?”, perguntei. “Sou eu mesmo”, ele respondeu. Trocamos algumas palavras e ele pareceu entusiasmado: “Finalmente encontrei alguém no meu nível”, revelou a um amigo, tomando dele um maço de cigarros, no qual anotou meu telefone.

Guará não me telefonou: encontrei-o novamente por acaso: estava de viagem e deu-me entradas para ver A opção. Na saída do auditório, vi-me cercado pelos aleijados, prostitutas e marginais que compunham o elenco do filme de Ozualdo Candeias. De volta a São Paulo, Guará ligou-me insistindo para que eu fosse assistir às conferências de Buckminster Füller sobre o futuro da humanidade. “Quem é Buckminster Füller?”, quis saber. “É um gênio que inventou o domo geodésico”. Fui por curiosidade: numa das conferências, a loira que ajudava o “gênio” com os microfones chegou a irritá-lo tanto que ele a expulsou do palco aos berros de “não sei o que as loiras têm a ver com a física de Einstein!”. Tratava-se de um paranóico, cujo pensamento evoluía em fórmulas como: x é y; z é r; portanto, f é k.

Outra noite, Guará convidou-me para assistir à projeção de uma série de slides que fizera em Goa. As fotografias eram muito bonitas, especialmente uma, em que ele aparecia nu ao lado de um grande barco, como um Robinson Crusoé em sua ilha de areia cercada de azul por todos os lados. Mostrou-me seus filmes, seus quadros. Ele se objetivava nas coisas e se exibia através delas, não de uma forma neurótica, mas para que gostássemos dele através de suas objetivações. Entregava-se totalmente sem pedir nada em troca – uma forma pura de generosidade, diferente daquela em que há uma recuperação do elogio às objetivações na forma mesma da exibição.

O cinema e o sexo eram os “territórios” de Guará. Logo me contou sobre um amigo seu que conseguia sorver, deliciado, o esperma do próprio falo; sobre as aborrecidas bacanais que freqüentara com outros artistas brasileiros em Londres; sobre o gosto esquisito de um famoso empresário que sentia prazer quando defecavam em seu rosto; sobre conhecidos seus que se estimulavam sexualmente com parceiras aleijadas. Embora possuísse uma sensibilidade feminina, tudo em Guará era exacerbadamente masculino. “Gosto das coisas viris”, disse-me noutra ocasião, tentando esclarecer sua misoginia, “mas não posso odiar as mulheres porque tenho mãe, irmãs, amantes”. Ele também manifestava, em relação aos homossexuais, uma espécie de rancor sádico. Odiava travestis e lésbicas em geral, e quando soube que eu gostava de Ângela Rô Rô, disse-me que ela era um câncer que se alastrava pelo mundo. Como eu discordasse, afirmou: “Mas ela também é minha amiga”. O que Guará não conseguia destruir, anexava.

Ele tinha paranóias singulares, como a de nunca entrar num cinema antes que as luzes se apagassem, e de se ver desdobrado, algumas vezes, andando pelas ruas. Justificando sua impossibilidade de ganhar dinheiro alienando seu corpo, afirmava ter resolvido prolongar um pouco sua adolescência, tendo já passado dos quarenta. E, assim, Guará carrega, no corpo e na alma, as cicatrizes e poluições de crimes perpetrados ao longo de uma existência underground. E é como se uma aura o protegesse das deformações que a matéria histórica inflige à essência humana. Não foi engajado pelos acontecimentos, sexualizado pelo sexo, drogado pelas drogas, mistificado pelo oriente, glamorizado pelo cinema. Talvez a própria morte não encontre nele certas repercussões naturais.

Convivendo com a bestialidade – o mesmo à vontade de James Dean tocando tuba para suínos exibe Guará na porcaria do cinema nacional – conserva a pureza original de um recém-nascido. Não a de um recém-nascido comum: a pureza original de um recém-nascido Frankenstein. Pois é com inocência que ele sonha com um apocalipse nuclear para salvar a humanidade, que ele suspeita as mulheres de serem a escória da sociedade, que ele admira os vilões da história e confia na inteligência das massas. Se Guará viesse à rua de revólver em punho, atirando ao acaso, tanto quanto possível, sobre a multidão, realizaria o mais simples dos atos surrealistas, tal como o definiu Breton, e escaparia ileso, como o poeta assassino de Buñuel, distribuindo autógrafos após a condenação do tribunal. Toda realidade que este duende toca transforma-se em imaginação.

Em Guará, a nostalgia de Édipo vem em ondas de ira contra o imperialismo americano (o pai) e de paixão pelo cinema americano (a mãe), no qual “mama”, como declarou certa vez. Trata-se de um artifício da espécie de paranóia com que se arma a criatura do Dr. Frankenstein contra a paranóia dos homens: vendo o mundo com os olhos puros de um esquizofrênico, adere à imagem monstruosa que dele fazem os humanos, sucumbindo à vontade de poder. Todos os papéis que Guará interpreta passam esta imagem de líder, chefe, dono ou patrão – de pai – que ele acaricia inconscientemente.

O olho de Deus fixado em Caim, o olho de Cristo sobre todas as camas, o olho da televisão em todas as salas, o olho das lanternas em todas as sombras, o olho dos holofotes em todas as fugas, o olho mágico em todas as portas, o olho dos semáforos em todas as esquinas, o olho dos olheiros em todas as celas, o olho do vizinho atrás de todas as janelas, o olho-de-lince no emblema dos detetives particulares… são tantos os olhos que vasculham e condenam, de um ponto de vista transcendental, que através dessa luz a culpa se infiltra no transgressor potencial ou efetivo das normas até os ossos – ameaçando-o, para que não tente; deformando-o, para que se arrependa: para que não pense mais “nisso”. Acossado, e para manter-se gratificado, Guará abole, num ato de vontade, o princípio de realidade. Filho ingrato do liberalismo, dispensa a legalização de seus crimes: não lhe faz falta a permissão do pai – que imaginariamente matou – para aquilo que não concebe como um crime – e que realmente pratica.

O criminoso imaginário é indiferente aos destinos da humanidade: ilude-se com a morte do pai como eliminação da paternidade. Culpa ora o social, ora o feminino, pelo que é – mas gosta muito de ser o que é para ser capaz de mudar. Há suficientes bodes expiatórios para mantê-lo na sua querida irresponsabilidade. Defende-se contra inimigos imaginários: dá razão a todos, para guardar a sua; sabe-se genial e diz-se um imbecil; oscila rapidamente do orgulho à vergonha: não se perdoa o ter abandonado a subjetividade no instante mesmo em que a descobriu; não aproveita, tampouco, os trapos que dela conserva. Porque faz o que é proibido ele se acredita livre. Mas há grandes regiões de prazer fatais ao desejo; caindo na armadilha do sado-masoquismo, o criminoso imaginário tende à degradação do prazer. Enquanto se mantém imerso no imaginário, protegido em seus limites, não pode cometer o crime perfeito: este só existe a partir do confronto com a lei, realiza-se a despeito e com o concurso do princípio de realidade existente, para manter sua lembrança no fim da execução do único crime que compensa (o inconsciente só é simpático ao criminoso perfeito e ao criminoso morto).

A aventura do homem livre – o criminoso perfeito – é solitária; seu projeto é matar a paternidade, mais do que o próprio pai. Para tanto, não pode alimentar ilusões; só conta com uma chance e nos seus cálculos entra o destino de toda a humanidade. Sem superego, não precisa superar complexos; aceita o desafio da realidade – sabe-se vencedor. Ladrão que faz a ocasião, é o ator perfeito representando a farsa da legalidade para preservar da punição todas as suas transgressões. A natureza do crime perfeito é qualitativamente diferente da do crime comum. Também não é aquele que jamais será descoberto, mas o que não o foi ao seu tempo, que só se dá como perfeito no futuro, quando seu mecanismo é revelado e demonstrado como e por que não poderia ter sido descoberto.

Assim, crimes perfeitos são as obras de arte que permanecem, as relações de amor e amizade que resistem ao mundo, os acontecimentos que fazem a humanidade sem tempo ou lugar explodir de emoção. Nada de limpo nestes crimes: através deles, o sangue escorre como através de qualquer outro. A diferença é que não escorre em vão. O crime perfeito manifesta o que não se esmaga impunemente: sua sobrevivência através das catástrofes, dos acidentes, das agressões, do terror e do prático-inerte é a possibilidade da revolta contra a história. Por isso o investigador comum jamais poderá capturar o criminoso perfeito: vivem num mesmo espaço, mas não num mesmo tempo. O local do crime pode ser descoberto: seu tempo e agente, só mais tarde e tarde demais. É este jogo com o tempo que conta para a perfeição de um crime.

A instituição policial postula a inexistência do crime perfeito: o vazio da captura seria apenas devido à falta de investigação ali onde o culpado escorregou das malhas da lei. Esta noção vulgar prepara a necessidade de vigilância e coerção totais. Mas a ingenuidade do investigador comum é flagrante: a investigação perfeita – que ele não ousa realizar – seria, ela também, um crime perfeito, e não o triunfo da morte, como queria o pobre diabo. Ao contrário de si, o investigador perfeito tem plena consciência de sua criminalidade: age em nome de uma lei a cujo sentido é alheio; é na obra de investigação que reside seu desejo. Difere do criminoso perfeito por ser ativo, mas ambos inutilizam Deus arrebatando-lhe o poder de criar. O investigador comum também queria imortalizar-se, mas aderindo a um sistema que garante ser imortal; precisa de Deus para dele se aparentar, conservando a transcendência em sua imanência de subhomem. Somente o conceito radical da inexistência de Édipo substitui os discursos parciais da sociedade pelo discurso universal da humanidade.

O sonho de Guará teria sido o de ser um filósofo da matemática: a família, essa gostosa casa de chocolate onde prendem e engordam as crianças para a sopa da velha bruxa, destruiu o seu sonho – mas não a lembrança de uma possível felicidade. As reminiscências de um futuro pleno, o olhar atirado para longe, esta sede de absoluto permanecem: Guará encarna, depois de Greta Garbo, o mito “decadente” da diva: vem desta encarnação a aura de Guará, que ele inconscientemente resume num pensamento chave: “O homem é o que é”. Este princípio absurdo (já que o homem é o que faz) protege-o contra as mentiras de sua vida. Sendo o que sonha, não importa o que realiza: filmes, crimes, contatos – são fantasias da realidade.

Ao invés de transformar-se sem cessar no embate com a realidade, Guará escolheu habitar no imaginário, representando na vida e vivendo na representação. Como Anna Magnani, em Le Carrosse d’Or, de Jean Renoir, poderia dizer: “Onde termina o teatro? Onde começa a vida?” Ele não se cansa de ver e rever os filmes que ama – às vezes vinte vezes – para ingressar, imaginariamente, naquele universo perfeito. Noutro passe de mágica, inclui em seus filmes cenas de filmes clássicos, para obter a sensação de neles ter atuado. Assistindo ao mais insignificante espetáculo, arranja para que não seja distraído, irritando-se com a presença de espectadores ao redor, cujos sinais de vida quebram a ilusão que alimenta de estar na imaginação como se estivesse na realidade, fundindo-se na forma, longe do ridículo do mundo: Guará assiste a filmes como quem faz amor.

Homem imaginário, Guará compõe diariamente as mais díspares personagens: existencialista, místico, sonhador, católico, terrorista, fauno, hindu, feiticeiro, nudista, vingador, solitário, fugitivo, marginal, trabalhador. Ele se lança, estático, em projetos de vida que se multiplicam sem nunca realizar-se, numa empresa próxima à de Baudelaire que, no entender de Sartre, avançava em ondas, sem um fim unificador. Como Guará mesmo formulou: “Minha vida é um filme seriado”. Seus atos – melhor dizendo, seus gestos amplos e indolentes – formam uma floresta virgem de projetos.

O que há de comum em todas as personificações aleatórias de Guará é que, seja onde for, ele está sempre em comércio com a carne humana: nunca em uma relação, nunca alimentando um desejo, mas alimentando-se da carne de seus semelhantes. Não da carne “sadia”, mas da carne “podre”. Seu personagem só pode exprimir-se eroticamente pela supressão do erotismo: estrangulando loiras, espancando jesuítas, prostitutas e homossexuais, chorando ou guiando cadáveres, violentando homens e mulheres, extorquindo e matando machos, amassando ou esmagando testículos, conspurcando ou mutilando órgãos humanos. Ao repudiar a humanidade, Guará assume a identidade do monstro – para melhor comer seus iguais.

Por sua visão original e suas opiniões radicais, Guará é freqüentemente criticado; ele concorda em primeira instância com o interlocutor, mas apenas para descarregar seu rancor na primeira oportunidade: não se defende; mas depois de legitimar a crítica, pulveriza o autor com evidências objetivas. Parece dizer: “É certo o que diz… Mas veja como você é um imbecil”. Guará forja sua segurança com golpes baixos, rendendo indiferença ao sangue dos outros. Seu temperamento esponjoso assimila a negação, mas só por um momento. O suficiente para que, recuperando a alegria, possa descontrair-se, integrando a contradição sem resolvê-la. Torna a Terra um deserto para realizar-se sem o concurso do mundo. Nada escapa de seu invólucro natural: guarda sua essência em plena troca; sempre aquém ou além do que o ocupa ou se ocupa, nada penetra e por nada é penetrado. O acúmulo dessa essência torna-o cada vez mais único e próximo das divindades.

Há, no entanto, o momento da recaída: quando está sendo filmado. A máquina que registra seus movimentos possui Guará enquanto ele representa; possuído pelo aparelho ao qual concede vida pelo olhar que lhe dirige, pode finalmente possuir a si mesmo. Beijando uma coadjuvante, Guará não lhe dá nada; um olhar direto para a câmera revela que ele está concentrado num outro objeto: o espectador ausente – ele mesmo. Guará olha para a objetiva/espelho à procura de Guará, para possuí-lo, para ser por ele possuído, através da objetiva/falo.

Ver a si próprio numa tela é uma experiência muito forte; Guará fica transtornado, quase não suporta, chega a abandonar o auditório. Neste estado, recupera a humanidade renegada. Mas se só por este momento de verdade é superior a todos os babacas que se anulam diante do mundo, não é superior ao mundo que pensa poder anular: o caráter imaginário de seus crimes bloqueia sua carreira. Os filmes que Guará imaginou não foram realizados; os filmes que realizou não foram terminados; os filmes que terminou não foram exibidos; os filmes exibidos saíram logo de cartaz. Narciso da noite, Guará padece a maldição do vampiro: mira-se no espelho sem encontrar seu reflexo. Suas fotos são freqüentemente publicadas sem legenda e seu nome passa despercebido entre os letreiros dos filmes que ajudou a dirigir. Mas os que o conhecem e amam não se desesperam. Sabem que um dia ele cometerá um crime perfeito. Não foi para isso, afinal, que se conservou intacto?

(São Paulo, 1983).

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FUNCIONÁRIO DO DEPARTAMENTO DE CRIAÇÃO DA HUMANIDADE

 

Guará e Presidente Itamar Franco no Palácio do Planalto

MARCELO FIÚZA

Jornal O Tempo, Belo Horizonte, 10 out. 2004. Reportagem de capa do Caderno Magazine.

Eu não sou mais eu

Movido por idéias, o ator, diretor e roteirista Guará Rodrigues tem sua obra reunida em DVD e prepara lançamento de livro autobiográfico batizado de ‘Memórias de um Hóspede’

Há algumas semanas, o ator Guaracy Rodrigues, o Guará, participou com o diretor Neville D’Almeida de um seminário sobre cinema marginal no Centro de Cultura Belo Horizonte. Na saída, descendo a Rua da Bahia, parou num dos botecos. Então, entrou um jovem negro com um objeto que parecia ser uma metralhadora. “Levantei os braços me rendendo, mas era um cavaquinho estilizado, ele tocou umas músicas, com letras próprias, logo me convidou para morar na casa dele, onde tem um estúdio, toca todo tipo de instrumento e grava. Ninguém conhece Ronaldo José de Souza, vou fazer um vídeo digital sobre esse cara”, garante o ator belo-horizontino.

E foi a organização desse mesmo curta-metragem que trouxe novamente Guará de volta à cidade, na última semana, quando conversou com a reportagem novamente no Centro de Cultura Belo Horizonte. Por mais insólito que pareça o projeto, tem tudo a ver com Guará Rodrigues, figura emblemática do cinema brasileiro, partícipe de mais de uma centena de filmes, seja como ator, diretor ou roteirista.

Não é fácil encontrar com Guará, mesmo porque, há muito ele optou por não ter residência fixa. Quando na terra natal, hospeda-se na casa onde foi criado, em Santa Tereza. Nos últimos anos, passou a maior parte do tempo no Sul da Bahia, mas é presença comum em São Paulo, Rio de Janeiro e em diversas cidades da Europa e da índia. Uma peregrinação que começou aos 12 anos, quando viajou pela primeira vez, para Ouro Preto.

Como escreve o doutor em cinema Luiz Nazario, que prepara o lançamento de um DVD e de um livro biográfico inédito sobre o ator, Guará conviveu na Paris da Nouvelle vague com François Truffaut e Jean-Luc Godard, foi ao cinema na Roma da “dolce vita” com Maria Schneider, virou junkie em Amsterdã nos anos de 1970, acompanhou Hitchcock nas filmagens de Frenesi em Londres – quando gravou também, como protagonista, Memórias de um estrangulador de loiras, de com Júlio Bressane. Fez nessa época a rota das drogas, entre Holanda e Índia, com uma câmera e um gravador, quando colheu imagens para o que considera o primeiro road-movie brasileiro, Boom Shankar – louvação que dá o iniciado ao inalar o cone de haxixe aceso.  “Fui para a Europa nos anos de 1970 com todos os filmes da Belair debaixo do braço, fugindo do regime militar”, diz o ator, sobre os longas da produtora de Julio Bressane e Rogério Sganzerla.

Pátria do cinema

Pouco desse material sobreviveu ao estilo de vida despojado de Guará. “Eu sou um cineasta, não faço TV e teatro. No cinema faço quase tudo, escrevo, dirijo, atuo – só não fiz fotografia até hoje porque tenho uns amigos fotógrafos que são melhores”, afirma. A vida na estrada tampouco é um problema. “Eu não sou mais eu, minha casa não é minha casa. Minha bagagem é tudo que cabe na mala Não tenho quadros do Renoir e Rembrandt porque não cabem na bagagem. Quem sou? Guará é silêncio”,  divaga o artista, que se diz cidadão da “pátria do cinema”. “Quando chego em qualquer lugar do mundo, vou logo procurando o pessoal que faz cinema e rapidamente estamos falando a mesma língua”, conta, sobre uma paixão que começou menino ainda, quando freqüentava sessões de filmes de guerra no Cine Santa Tereza para policiais militares. “Eu era uma das poucas pessoas em Belo Horizonte que assinava a Cahiers du Cinéma”.

Não é à toa que o livro autobiográfico que escreveu, entre 1985 e 1995, se intitula Memórias de um hóspede. “Queria ter dinheiro para editar esse livro com luxo e muitas fotos. Já trabalhei muito e queria ser recompensado. São memórias romanceadas das viagens, estou sempre hospedado, seja na mansão do governador, seja no barco de um pescador solitário”, diz esse leitor contumaz que costuma deixar como espólio na casa de seus anfitriões lotes de livros e, mesmo, latas de filme – a única cópia de Boom Shankar foi encontrada em 2000 na casa de um amigo paulista, em péssimas condições.

ARTISTA SEGUE FILOSOFIA NEO-HIPPIE

MARCELO FIUZA

Jornal O Tempo, Belo Horizonte, 10 out. 2004, Capa do Caderno Magazine

Na última terça feira, antes da entrevista, Guará Rodrigues lia Orientalism, de Edward Said, mas sua recente obsessão é o turco Ohran Pamuk., autor de New Life, de onde o ator pretende tirar o roteiro  de seu próximo filme. “É a história de um livro que muda a vida da pessoas com as palavras escritas, um romance que vou filmar no ano que vem”, diz. Outro projeto premente será na Bahia, onde uma amiga deve financiar um documentário sobre a criação de búfalos. “Vou misturar imagens de filmes de John Ford e Howard Hawks”, diz. Antes, porém pretende remontar Boom Shankar,  com novas imagens. “É a história das aventuras de Marco Pólo fragmentada, como os atores  Célia Messias e Luiz Fernando Guará ainda estão vivos, vou refilmar”, conta.

Se tantos projetos vão se concretizar, ninguém sabe, mas o fato é que a despeito de tantas idas e vindas, Guará mantém profícua produção. Na terça-feira que vem estréia em rede nacional – com exibição pela Rede Minas – O homem que botava ovo, curta de Rafael Conde no qual participa. Ainda inédito no circuito comercial, está O general, de Fábio Carvalho, com o ator como protagonista. De Thiago Mata Machado, participou do longa já em fase de finalização O quadrado de Joana. Filmou com Sérgio Bernardes Tamboro. De José Luiz Peixoto, participou da co-produção entre Cuba, Brasil e Espanha, Prazo de validade, um media-metragem. E de Rodrigo Amitem, atuou em Imagem mon amour, rodado na Praça Mauá, no Rio de Janeiro. Nazario produziu com ele Prisioneiros do Planeta Ornabi, no ano passado.

Produções inéditas e sem exibição. “Nunca faço nada pensando no que o público vai pensar ou onde a obra vai ser distribuída. As coisas pitam na vida, sigo essa filosofia neo-hippie. Sou um intelectual movido por idéias, tive a sorte de pertencer ao departamento de criação humana”, explica Guará.

LUIZ NAZARIO ORGANIZA TODA A FILMOGRAFIA DE GUARÁ RODRIGUES

MARCELO FIUZA

Jornal O Tempo, Belo Horizonte, 10 out. 2004, Caderno Magazine, p. 4.

Luiz Nazario define Guaracy Rodrigues como um personagem marginal do cinema brasileiro que percorre a história dessa arte desde os anos de 1960 até hoje: “Ele viveu todas as fases pelas quais esse cinema passou sempre de forma marginal, e isso me fascina”, conta o catedrático, professor-doutor da Escola de Belas Artes da UFMG, que organizou toda a filmografia do ator dentro do projeto Guará, o criminoso imaginário. “Guará é um ator que não é ator, ele vive os papéis e se confunde com os personagens, ele jamais fez teatro ou TV porque gosta desse universo cinematográfico e se confunde na medida em que a própria vida é um filme. Não é uma vida normal, é imaginária, ele não tem casa, bens ou propriedades: ele vive em casas de amigos, representando todo o tempo diversos papéis. Ele criou um personagem, o Guará, que vive tanto na realidade quando no cinema”, explica Nazario.

“Guará, o criminoso imaginário” é também o título de um ensaio escrito pelo estudioso em 1982, publicado na primeira versão do livro Da natureza dos monstros. “A partir desse livro, desenvolvi a filmografia completa do Guará, que não parou de trabalhar. No atual projeto, atualizo essa filmografia, amplio o ensaio e acrescento textos do ator. Há também entrevistas que fiz ao longo dos anos com ele e também o livro inédito, Memórias de um hóspede, além de todos os roteiros dele”.

Segundo Nazario, será necessário reescrever o livro autobiográfico: “Ele não é escritor, tem uma narrativa fragmentada, o conteúdo é muito interessante e vamos publicar tudo no mesmo pacote, juntamente com a fortuna crítica de Guará”, diz, referindo-se a uma seleção de reportagens e notas publicadas em jornais sobre o ator. O professor, que conta com o auxílio de um aluno bolsista financiado pela FAPEMIG para a tarefa, pretende concluir o projeto até dezembro de 2005: “Vamos publicar o livro com o DVD. Se entrarmos em alguma lei de incentivo, será uma edição de luxo, com fotos. Caso contrário, apenas com textos.” O DVD deve conter dois filmes que Nazario produziu com Guará recentemente, Sexo-verdade (2001) e Prisioneiros do Planeta Ornabi (2003), além de A diabólica (1985), filmado em Super-8. Guará participou também de outro projeto de Nazario, focado na obra do cineasta italiano Píer Paolo Pasolini, cujas imagens também serão incluídas no dito DVD.

CARREIRA

Confira alguns filmes do ator Guará Rodrigues (organização de Luiz Nazario).

1965: As aventuras de Guilherme Tell, de Carlos Alberto Prates.

1968: Jardim de guerra, de Neville d’Almeida.

1969: Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade.

1970: Piranhas do asfalto, de Neville.

1971: Memórias de um estrangulador de loiras, de Júlio Bressane.

1977: Anchieta José do Brasil, de Paulo Sarraceni.

1980: Eu te amo, de Arnaldo Jabor.

1982: Tabu, de Bressane; Rio Babilônia, de Neville.

1988: Luar sobre Parador, de Paul Mazursky.

1999: Brás Cubas, de Bressane.

1991: Matou a família e foi ao cinema, de Neville.

1995: Miramar, de Bressane.

1996: O lobo Guará, de Fábio Carvalho.

1997: A hora vagabunda, de Rafael Conde.

1999: Cansa-te nobremente!, de Guará Rodrigues.

2001: Samba-canção, de Conde.

GUARÁ: HOMENAGENS PÓSTUMAS

Convite para uma homenagem póstuma ao Guará

Teria Guará um dia imaginado que seu velório seria filmado à maneira do velório de Di Cavalcanti no único filme proibido até hoje no Brasil, por determinação da família do pintor, Di Cavalcanti Di Glauber, ou Ninguém assistiu ao formidável enterro de sua quimera, somente a ingratidão, essa pantera, foi sua companheira inseparável ou simplesmente Di-Glauber (1977), de Glauber Rocha? Com certeza. Um ator que viveu no imaginário – para o cinema, com o cinema, no cinema, do cinema – teria, sem dúvida, suposto para si uma morte cinemática. Guará, de fato, morreu assistindo a  algum filme na TV; foi velado por atores e cineastas (Paulo César Pereio, Maria Gladys, Isabel Lacerda, Neville D’Almeida, Geraldo Veloso, José Sette, entre outros amigos de toda a vida); e teve seu enterro documentado pela câmara do excelente fotógrafo Tony Nogueira, em imagens luminosas editadas por Chico de Paula no inusitado curta-metragem Guará, ladrão de estrelas (2006), de Fábio Carvalho, que já havia registrado o personagem passeando por Belo Horizonte em O lobo Guará (1996).

Em Belo Horizonte, em abril de 2006, foi organizada a pequena mostra “Homenagem ao Guará”,  na Sala Humberto Mauro, no Palácio das Artes, com a exibição de alguns dos últimos trabalhos de Guará em Minas Gerais. Estavam presentes: Gláucia Rodrigues (a irmã de Guará), Geraldo Veloso, Fábio Carvalho, Isabel Lacerda, Tony Nogueira, entre outros. No Rio de Janeiro, em setembro de 2006, Antonio Kleber de Araújo organizou para a “Fraternidade Secreta do Lobo Guará” um ciclo intitulado “Os Preferidos do Guará”, exibindo uma série de filmes entre aqueles que seus amigos se lembravam de tê-lo ouvido dizer alguma vez que estavam entre os que ele preferia acima de todos. Várias listas foram compiladas e comparadas até que a seleção foi montada: “Tenho certeza que nosso amigo estará presente como penetra em todas as sessões”, escreveu Araújo, que conseguiu junto ao Tempo Glauber a liberação de uma sala de projeção para 40 pessoas todas as terças-feiras das 20h00 às 23h00 para sediar o Cine-Clube Guará Rodrigues.

A mostra incluiu os filmes: Ikiru (Viver, 1952), de Akira Kurosawa; Strangers on a Train (Pacto sinistro) e Rope (Festim diabólico), de Alfred Hitchcock; Meet me in St. Louis (Agora seremos felizes, 1944), de Vincente Minnelli; The Hunchback of Notre Dame (O Corcunda de Notre Dame, 1939), de William Dieterle; The Grapes of Wrath (As vinhas da ira, 1940), de John Ford; Sunset Blvd. (Crepúsculo dos deuses, 1950), de Billy Wilder; The Night of the Hunter (O mensageiro do diabo, 1955), de Charles Laughton; Freaks (Monstros, 1932), de Tod Browning; Johnny Guitar (Johnny Guitar, 1954), de Nicholas Ray; Only Angels Have Wings (Paraíso infernal, 1939), Rio Bravo (Onde começa o inferno, 1959) e Rio Lobo (Rio Lobo, 1970), de Howard Hawks; Shock Corridor (Paixões que alucinam, 1963), de Samuel Fuller; e Notre Musique (Nossa música, 2004), de Jean-Luc Godard – embora eu esteja certo de que, entre os filmes desse cineasta, Guará teria preferido À bout de souffle (Acossado, 1960) ou Pierrot Le Fou (O demônio das onze horas, 1965). Lembrei-me então – lamentando eternamente – que não pude realizar com Guará vários projetos de curtas-metragens que havíamos planejado fazer juntos, entre os quais:

Psicanálise ao luar: uma sessão de análise de um jovem psicótico que se encontra num estado lastimável de pânico, numa noite de lua-cheia, pois imagina que se transformará num lobisomem. Guará, o psicanalista, apenas ouve, fazendo calmamente suas anotações. Por fim, diz: “Ele se imagina um lobisomem… Agora eu sei como curá-lo!” e se transforma num lobisomem de verdade, debruçando-se sobre o jovem para devorá-lo. O curta aludia ao final de Das Cabinet des Dr. Caligari (O gabinete do Dr. Caligari, 1920), de Robert Wiene,  materializando perversamente o conceito freudiano de transferência psicanalítica.

A maldição da Lua: Guará, em big close, seria a face da Lua, com seu olho direito furado por um foguete, numa perfeita reconstituição, quadro a quadro, da famosa cena de pastelão de Le Voyage à la Lune (Viagem à Lua, 1902), de Georges Méliès, com imagens em preto e branco tremidas e riscadas, como se tivessem sido realizadas na aurora do cinema.

Le pauvre chic: Guará encarnaria um mendigo refinado, com gestos elegantes, proferindo frases sofisticadas, entremeadas de citações cultas, pinçadas de livros de grandes autores encontrados nas lixeiras da cidade, abusando de expressões em francês e inglês, e selecionando, dos restos de comida dos restaurantes, apenas aqueles bocados que ele conseguia identificar como quitutes importados, da melhor qualidade.

Além desses curtas, projetamos, para sair de nossa pobreza crônica, escrever um best-seller de auto-ajuda a quatro mãos, intitulado Les Trois Savoirs. O livro seria dividido em três partes: 1. Savoir Vivre; 2. Savoir Faire; e 3. Savoir Être… Ríamos muito imaginando como os leitores de Paulo Coelho e quejandos poderiam usar nosso compêndio, deveras útil no mundo tosco atual.

Em maio de 2009, após ler, por acaso, a Lápide 002, dedicada ao Guará em Cemitério de Autores, o talentoso fotógrafo Cesar Barroso, que não sabia até então da morte do ator, despediu-se dele em seu blog Leia junto, onde recordou, numa sentida reflexão sobre a inexorável passagem do tempo, alguns de seus encontros com Guará durante as filmagens de Jardim de guerra (1970), de Neville D’Almeida e, logo depois, no exílio voluntário dos artistas brasileiros do underground, em Londres.

Assisti a Jardim de guerra há décadas, com o Guará, no Museu da Imagem e do Som em São Paulo. Há alguns anos, num encontro com Neville D’Almeida, este me disse que o filme – seria este mesmo ou Piranhas do asfalto (1971)? – estava desaparecido: ele mandara a cópia única para um festival na Europa e essa cópia nunca voltara. Em dúvida sobre o título desaparecido, procurando mais informações sobre isso, encontrei, por acaso, o blog Vinil Filmes, que digitalizou e publicou, sem minha autorização, a entrevista A representação segundo Guará, como uma forma de homenagem, e onde o autor do blog, um cineasta não identificado, cita o comentário de Helena Ignez no breve encontro que teve com ela: “Conhece o Guará? Ele é um ator fantástico”.

Em seu trabalho acadêmico de conclusão do Curso de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, Felipe Lessa e Lívia Ascava escreveram um livro-reportagem sobre a produtora Bel Air, de Rogério Sganzerla e Julio Bressane, destacando o importante papel de Guará nesta produtora de cinema, que teve uma vida curta, mas intensa.

Atualmente, Lucas Parente, no Rio de Janeiro, trabalha num projeto de vídeo reunindo tudo o que foi feito com Guará como ator-personagem. Ele conta com o apoio da produtora N-Imagem e de Sinai Sganzerla, que lhe cedeu os filmes dirigidos por Rogério Sganzerla nos quais Guará atou. O filme pretende ser uma nova ficção em que Guará aparecerá polifônico, numa somatória de vários momentos de sua vida retirados de diversas narrativas. Lucas considera Guará um dos grandes ícones do cinema nacional, esquecido como tantos outros. Deseja fazer um filme em que Guará, eterno coadjuvante, seja o “total protagonista”, mesclando o personagem e o ator.

O projeto de Lucas Parente parece responder ao apelo que fiz em 1983 no ensaio “Guará, o criminoso imaginário” (incluído na primeira edição do livro Da natureza dos monstros): “Sem avaliar com justiça suas potencialidades, os cineastas que o convidam para cameo’s roles ou pontas-relâmpagos (que um dia será preciso reunir) reservam-lhe momentos onde sua aura ganha novas luzes” (p. 41). O dia parece estar chegando: no filme de Parente veremos Guará por inteiro através de todos os seus luminosos fragmentos.

É este também o objetivo – mais modesto – do projeto Guará, o criminoso imaginário, que coordeno na Escola de Belas Artes desde 2001, e que deve encerrar-se com a finalização de um vídeo sobre a singular carreira do ator, comentada por críticos e cineastas (José Tavares de Barros, José Américo Ribeiro, Rafael Conde, Geraldo Veloso, Patrícia Moran); e pelo próprio Guará, num longo depoimento, uma espécie de testamento cinematográfico, que gravamos, como um estranho pressentimento, algumas semanas antes de sua morte.

Luiz Nazario

MICRODEBATE SOBRE JEAN-LUC GODARD

Guará em São Paulo. Foto: Luiz Nazario

CARTOLA SEM COELHO

Paulo Henrique Silva   

Enquanto o professor Luiz Nazario acusava os cineastas europeus de buscarem imitar, em vão, o cinema de Hollywood, o ator Guará Rodrigues não poupou adjetivos negativos para os filmes da indústria. “É tudo uma m…, um lixo, o que eles fazem é o espetáculo pirotécnico”, defendeu. Menos radical, José Tavares de Barros concedeu para si o prêmio de “Saco de Ouro”. “Gosto de todos os tipos de filmes, até uma fita de ação como A outra face, de John Woo”, explicou. Fábio Carvalho preferiu aqui não se manifestar. Confira o bate-papo realizado após a sessão do filme JLG por JLG – Auto-retrato de dezembro, de Jean-Luc Godard:   

LUIZ NAZARIO: O Godard continua colocando na tela um monte de livros, quadros, filosofias, frases feitas, enfim, ele não modificou sua linguagem. Continua fazendo o mesmo cinema que fazia nos anos 1950-1960. É uma falta de criatividade do artista; Godard não se adaptou ao tempo.   

GUARÁ RODRIGUES: Todos os grandes cineastas fizeram o mesmo filme a vida toda, com a mesma equipe e os mesmo atores. Alfred Hitchcock e Howard Hawks fizeram isso.   

LUIZ NAZARIO: O estilo é o mesmo, mas será que o inimigo continua sendo o mesmo dos anos 60?   

JOSÉ TAVARES DE BARROS: Coerência há, mas concordo com Nazario que os tempos mudaram e Godard se repete. Na verdade, só fui movido a ver JLG por JLG por causa desde debate, pois, do contrário, ia esperar sair em vídeo.   

LUIZ NAZARIO: Acho que há uma diferença entre ver o mesmo filme prazeroso, agradável, bonito e fazer durante 30 anos o mesmo filme chato. JLG por JLG é crepuscular. Tem aquelas pinturas crepusculares, a luz de vela, o inverno, o amarelo da paisagem que é despovoada. É algo próximo da morte. Parece que Godard está esperando a morte.   

GUARÁ RODRIGUES: Eu me divirto mais vendo um filme de Godard do que outra coisa. Saio mais leve do cinema, é como ler um bom livro.   

JOSÉ TAVARES DE BARROS: Mas vejo uma grande diferença entre os outros filmes de Godard e JLG por JLG. Este último é uma tentativa curiosa dele mesmo esmiuçar, de fazer uma autocrítica. É igual a uma cartola de mágico, só que dela não sai nada.   

LUIZ NAZARIO: Isso é verdade. Você sempre vai a um filme de Godard esperando alguma coisa e ele nunca tira esse coelho da cartola.   

Fonte: SILVA, Paulo Henrique. Cartola sem coelho. Debate sobre o filme  JLG por JLG – Auto-retrato de dezembro, de Jean-Luc Godard, com José Tavares de Barros, Guará Rodrigues e Luiz Nazario. Jornal Hoje em Dia, Belo Horizonte, Caderno Cultura, p. 1, 23 set. 1997.

GUARÁ, ATOR E ‘BON VIVANT’

Guará e Luiz Nazario em pausa de filmagem de “A hora vagabunda”, de Rafael Conde 

Belo Horizonte, 11 de janeiro de 2010       

Comemorando a data de aniversário de Guaracy Rodrigues (Belo Horizonte, 1941-2006), inauguro este espaço de memória para recordar alguns momentos de sua singular trajetória no cinema. Guará – como era conhecido – deixou saudades naqueles que tiveram o privilégio de acompanhar sua carreira e usufruir de seu bom humor, de sua alegria de viver, de seus geniais insights filosóficos e de suas inesgotáveis  memórias cinematográficas. Postarei regularmente imagens e textos do arquivo pessoal que Guará me legou, recordando sua carreira de ator errante, em quase uma centena de filmes, rodados em diversas cidades do Brasil, e também na Inglaterra, na Índia, no Afeganistão. 

As fotografias e os recortes de jornal do Arquivo Guará  foram digitalizados por Luiz Amaral; as memórias inéditas de Guará, por Leonardo Farias; os DVDs da Trilogia Guará e o DVD Fantasias de Pasolini, que incluem as últimos trabalhos do ator, autorados por Marcelo La Carretta – ex-bolsistas do Projeto Guará Rodrigues, desenvolvido na Escola de Belas Artes da UFMG.  Se algum autor ou personagem  incluído no Arquivo Guará desejar sua exclusão dele,  basta enviar-nos uma mensagem que terá a contribuição imediatamente retirada. Mas espero contar com a boa vontade e a colaboração dos amigos do Guará para o enriquecimento deste memorial sem fins lucrativos, com postagens de assuntos relacionados e informações que ajudem a identificar os autores das imagens e os coadjuvantes das cenas da vida boêmia de Guará, ator e bon vivant.

Luiz Nazario