GUARÁ: HOMENAGENS PÓSTUMAS

Convite para uma homenagem póstuma ao Guará

Teria Guará um dia imaginado que seu velório seria filmado à maneira do velório de Di Cavalcanti no único filme proibido até hoje no Brasil, por determinação da família do pintor, Di Cavalcanti Di Glauber, ou Ninguém assistiu ao formidável enterro de sua quimera, somente a ingratidão, essa pantera, foi sua companheira inseparável ou simplesmente Di-Glauber (1977), de Glauber Rocha? Com certeza. Um ator que viveu no imaginário – para o cinema, com o cinema, no cinema, do cinema – teria, sem dúvida, suposto para si uma morte cinemática. Guará, de fato, morreu assistindo a  algum filme na TV; foi velado por atores e cineastas (Paulo César Pereio, Maria Gladys, Isabel Lacerda, Neville D’Almeida, Geraldo Veloso, José Sette, entre outros amigos de toda a vida); e teve seu enterro documentado pela câmara do excelente fotógrafo Tony Nogueira, em imagens luminosas editadas por Chico de Paula no inusitado curta-metragem Guará, ladrão de estrelas (2006), de Fábio Carvalho, que já havia registrado o personagem passeando por Belo Horizonte em O lobo Guará (1996).

Em Belo Horizonte, em abril de 2006, foi organizada a pequena mostra “Homenagem ao Guará”,  na Sala Humberto Mauro, no Palácio das Artes, com a exibição de alguns dos últimos trabalhos de Guará em Minas Gerais. Estavam presentes: Gláucia Rodrigues (a irmã de Guará), Geraldo Veloso, Fábio Carvalho, Isabel Lacerda, Tony Nogueira, entre outros. No Rio de Janeiro, em setembro de 2006, Antonio Kleber de Araújo organizou para a “Fraternidade Secreta do Lobo Guará” um ciclo intitulado “Os Preferidos do Guará”, exibindo uma série de filmes entre aqueles que seus amigos se lembravam de tê-lo ouvido dizer alguma vez que estavam entre os que ele preferia acima de todos. Várias listas foram compiladas e comparadas até que a seleção foi montada: “Tenho certeza que nosso amigo estará presente como penetra em todas as sessões”, escreveu Araújo, que conseguiu junto ao Tempo Glauber a liberação de uma sala de projeção para 40 pessoas todas as terças-feiras das 20h00 às 23h00 para sediar o Cine-Clube Guará Rodrigues.

A mostra incluiu os filmes: Ikiru (Viver, 1952), de Akira Kurosawa; Strangers on a Train (Pacto sinistro) e Rope (Festim diabólico), de Alfred Hitchcock; Meet me in St. Louis (Agora seremos felizes, 1944), de Vincente Minnelli; The Hunchback of Notre Dame (O Corcunda de Notre Dame, 1939), de William Dieterle; The Grapes of Wrath (As vinhas da ira, 1940), de John Ford; Sunset Blvd. (Crepúsculo dos deuses, 1950), de Billy Wilder; The Night of the Hunter (O mensageiro do diabo, 1955), de Charles Laughton; Freaks (Monstros, 1932), de Tod Browning; Johnny Guitar (Johnny Guitar, 1954), de Nicholas Ray; Only Angels Have Wings (Paraíso infernal, 1939), Rio Bravo (Onde começa o inferno, 1959) e Rio Lobo (Rio Lobo, 1970), de Howard Hawks; Shock Corridor (Paixões que alucinam, 1963), de Samuel Fuller; e Notre Musique (Nossa música, 2004), de Jean-Luc Godard – embora eu esteja certo de que, entre os filmes desse cineasta, Guará teria preferido À bout de souffle (Acossado, 1960) ou Pierrot Le Fou (O demônio das onze horas, 1965). Lembrei-me então – lamentando eternamente – que não pude realizar com Guará vários projetos de curtas-metragens que havíamos planejado fazer juntos, entre os quais:

Psicanálise ao luar: uma sessão de análise de um jovem psicótico que se encontra num estado lastimável de pânico, numa noite de lua-cheia, pois imagina que se transformará num lobisomem. Guará, o psicanalista, apenas ouve, fazendo calmamente suas anotações. Por fim, diz: “Ele se imagina um lobisomem… Agora eu sei como curá-lo!” e se transforma num lobisomem de verdade, debruçando-se sobre o jovem para devorá-lo. O curta aludia ao final de Das Cabinet des Dr. Caligari (O gabinete do Dr. Caligari, 1920), de Robert Wiene,  materializando perversamente o conceito freudiano de transferência psicanalítica.

A maldição da Lua: Guará, em big close, seria a face da Lua, com seu olho direito furado por um foguete, numa perfeita reconstituição, quadro a quadro, da famosa cena de pastelão de Le Voyage à la Lune (Viagem à Lua, 1902), de Georges Méliès, com imagens em preto e branco tremidas e riscadas, como se tivessem sido realizadas na aurora do cinema.

Le pauvre chic: Guará encarnaria um mendigo refinado, com gestos elegantes, proferindo frases sofisticadas, entremeadas de citações cultas, pinçadas de livros de grandes autores encontrados nas lixeiras da cidade, abusando de expressões em francês e inglês, e selecionando, dos restos de comida dos restaurantes, apenas aqueles bocados que ele conseguia identificar como quitutes importados, da melhor qualidade.

Além desses curtas, projetamos, para sair de nossa pobreza crônica, escrever um best-seller de auto-ajuda a quatro mãos, intitulado Les Trois Savoirs. O livro seria dividido em três partes: 1. Savoir Vivre; 2. Savoir Faire; e 3. Savoir Être… Ríamos muito imaginando como os leitores de Paulo Coelho e quejandos poderiam usar nosso compêndio, deveras útil no mundo tosco atual.

Em maio de 2009, após ler, por acaso, a Lápide 002, dedicada ao Guará em Cemitério de Autores, o talentoso fotógrafo Cesar Barroso, que não sabia até então da morte do ator, despediu-se dele em seu blog Leia junto, onde recordou, numa sentida reflexão sobre a inexorável passagem do tempo, alguns de seus encontros com Guará durante as filmagens de Jardim de guerra (1970), de Neville D’Almeida e, logo depois, no exílio voluntário dos artistas brasileiros do underground, em Londres.

Assisti a Jardim de guerra há décadas, com o Guará, no Museu da Imagem e do Som em São Paulo. Há alguns anos, num encontro com Neville D’Almeida, este me disse que o filme – seria este mesmo ou Piranhas do asfalto (1971)? – estava desaparecido: ele mandara a cópia única para um festival na Europa e essa cópia nunca voltara. Em dúvida sobre o título desaparecido, procurando mais informações sobre isso, encontrei, por acaso, o blog Vinil Filmes, que digitalizou e publicou, sem minha autorização, a entrevista A representação segundo Guará, como uma forma de homenagem, e onde o autor do blog, um cineasta não identificado, cita o comentário de Helena Ignez no breve encontro que teve com ela: “Conhece o Guará? Ele é um ator fantástico”.

Em seu trabalho acadêmico de conclusão do Curso de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, Felipe Lessa e Lívia Ascava escreveram um livro-reportagem sobre a produtora Bel Air, de Rogério Sganzerla e Julio Bressane, destacando o importante papel de Guará nesta produtora de cinema, que teve uma vida curta, mas intensa.

Atualmente, Lucas Parente, no Rio de Janeiro, trabalha num projeto de vídeo reunindo tudo o que foi feito com Guará como ator-personagem. Ele conta com o apoio da produtora N-Imagem e de Sinai Sganzerla, que lhe cedeu os filmes dirigidos por Rogério Sganzerla nos quais Guará atou. O filme pretende ser uma nova ficção em que Guará aparecerá polifônico, numa somatória de vários momentos de sua vida retirados de diversas narrativas. Lucas considera Guará um dos grandes ícones do cinema nacional, esquecido como tantos outros. Deseja fazer um filme em que Guará, eterno coadjuvante, seja o “total protagonista”, mesclando o personagem e o ator.

O projeto de Lucas Parente parece responder ao apelo que fiz em 1983 no ensaio “Guará, o criminoso imaginário” (incluído na primeira edição do livro Da natureza dos monstros): “Sem avaliar com justiça suas potencialidades, os cineastas que o convidam para cameo’s roles ou pontas-relâmpagos (que um dia será preciso reunir) reservam-lhe momentos onde sua aura ganha novas luzes” (p. 41). O dia parece estar chegando: no filme de Parente veremos Guará por inteiro através de todos os seus luminosos fragmentos.

É este também o objetivo – mais modesto – do projeto Guará, o criminoso imaginário, que coordeno na Escola de Belas Artes desde 2001, e que deve encerrar-se com a finalização de um vídeo sobre a singular carreira do ator, comentada por críticos e cineastas (José Tavares de Barros, José Américo Ribeiro, Rafael Conde, Geraldo Veloso, Patrícia Moran); e pelo próprio Guará, num longo depoimento, uma espécie de testamento cinematográfico, que gravamos, como um estranho pressentimento, algumas semanas antes de sua morte.

Luiz Nazario

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A REPRESENTAÇÃO SEGUNDO GUARÁ

Guará em Trancoso. Foto: Dudi Gupper

Em 1980, imaginei um livro de entrevistas com Guará, a ser escrito pelo correio, sobre o tema da representação. Minha curiosidade foi maior que sua disposição, e nosso livro ficou reduzido a esta entrevista inédita (Luiz Nazario).  

LN: Em La Notte, Michelangelo Antonioni fez uma experiência com Jeanne Moreau: terminadas as cenas com ela, continuava a rodar o filme, registrando os momentos em que a atriz, deixando de ser a personagem, não era ainda a pessoa. Como um ator vive esses momentos? Que relação há entre a pessoa, a personagem e esse ser intermediário?  

Guará: Baseado na minha experiência, não existe esse ser intermediário. O que existe quando se termina um plano é a crítica do que se fez. Uma crítica quase técnica. O ser intermediário não passa de uma sofisticação de intelectuais europeus. Essa frase não tem nada de pejorativo, pois amo a sofisticação, a Europa em geral e as culturas italiana e francesa em particular. Agora, a relação entre a pessoa (ator/atriz) e a personagem é outro papo. Um papo nada sutil. É quase violento. A mim a personagem me possui inteiramente, com a força que o demônio possui Rosário, no filme que escrevi para o Neville D’Almeida, Piranhas do asfalto.  

LN: Quando a personagem o possui, como um demônio, é para que você se esqueça de seu corpo? Representar é uma forma de não assumir o corpo através de sua instrumentalização?  

Guará: Meu corpo nunca está em jogo, a não ser como manifestação sensual da personagem. Ao mesmo tempo, na imagem, o corpo é a única coisa que domino, isto é, que não me causa surpresa quando o vejo filmado, principalmente se ele é decomposto, quer dizer: close-up das mãos, da sola dos pés, dos órgãos sexuais, dos olhos, dos lábios fechados entre os quais surge a língua úmida, etc. Enfim, o meu corpo está sempre assumido, não penso mais nele, mas não o esqueço: ele já não me pertence, pertence à personagem. Fui chamado pelo meu amigo Gilberto Loureiro para fazer um corcunda no seu próximo filme. Aí, sim, meu corpo vai ser literalmente instrumentalizado – é uma caracterização. Estou pensando em algo assim como Charles Laughton em The Hunckback of Notre Dame. O corpo se transforma numa obsessão… Mas não se pode perder o humor, como Charles, naquele plano memorável dizendo: “I’m not a man, I’m not a beast”. Qual a sua formação de ator? Guará: Minha formação de ator é a forma-ação. A forma: o diretor, o diretor de fotografia, o figurinista, o cenógrafo, o script, a equipe enfim. À palavra “ação”, eu me transformo em ator. À palavra “corta”, volto a ser Guará (personagem/ pessoa/ ator).  

LN: Quais os seus atores preferidos?  

Guará: Richard Dreyfuss, Zbigniew Cybulski, Gérard Philipe e todos aqueles monstros sagrados do velho cinema americano: Bette Davis, Humphrey Bogart, etc. E também qualquer ator dirigido por Alfred Hitchcock, até mesmo Doris Day em The Man Who Knew Too Much. E Edgar Buchanan, o juiz de Guns in the afternoon, e também Warren Oates. De qualquer maneira, atualmente estou parado na de Richard Dreyfuss.  

LN: Quando veio a noção de representar?  

Guará: Creio que com a primeira mentira. Quando se mente é preciso elaborar, iludir, ser uma outra pessoa sem renunciar ao que você é. Depois, socialmente, a grande mentira, você tem que representar sempre.  

LN: A representação nasce na família – no teatro do pai e da mãe – ou num desejo constante de ser outro?  

Guará: O teatro do pai e da mãe, como casa de espetáculo, tendo eles como espectadores, é realmente muito interessante e incentivador para o jovem ator (o filho), mas sendo eles o espetáculo em si, é mais uma novela de Janete Clair do que teatro. Por outro lado, os pais, como diretores, são muito ditatoriais. O desejo constante de ser outro… isso não existe. Eu não desejo ser outro quando represento, eu quero ser eu mesmo enquanto outra pessoa. Quer dizer, eu quero me colocar no interior de outro ser (personagem) e o transformar para o bem ou para o mal.  

LN: Fale das suas decepções, no cinema, de ver sua imagem apreendida de forma diversa daquela que havia imaginado, da diferença que existe entre o sonho da representação e a sua realidade, da montagem enfim, que destrói… o quê?  

Guará: O cinema nunca me decepcionou como criação. Existe a decepção quanto às dimensões. Você sabe, o cinema tem a limitação das suas dimensões. Por outro lado, você idealiza, digamos, um plano que fez e, quando o vê, depois de um tempo, o tempo da revelação – revelação do negativo e revelação no sentido amplo –, você já amadureceu mais um pouco e pensa: “Isso poderia ser feito assim… de uma maneira mais perfeita”, ou “está tudo errado, não é nada disso”. Não se pode retocar, como na pintura, ou jogar fora ou rasgar, como se faz com uma fotografia. A perfeita representação ou a representação perfeita só existe em toda a sua sutileza na vida real. A cronologia é a montadora ideal. A montagem do cinema é arbitrária. Destrói a ordem interna do ator.