ENSAIO CARNAVALESCO

Guará em ensaio carnavalesco. Foto: Toni Nogueira.

Guará em ensaio carnavalesco. Foto: Toni Nogueira.

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FUNCIONÁRIO DO DEPARTAMENTO DE CRIAÇÃO DA HUMANIDADE

 

Guará e Presidente Itamar Franco no Palácio do Planalto

MARCELO FIÚZA

Jornal O Tempo, Belo Horizonte, 10 out. 2004. Reportagem de capa do Caderno Magazine.

Eu não sou mais eu

Movido por idéias, o ator, diretor e roteirista Guará Rodrigues tem sua obra reunida em DVD e prepara lançamento de livro autobiográfico batizado de ‘Memórias de um Hóspede’

Há algumas semanas, o ator Guaracy Rodrigues, o Guará, participou com o diretor Neville D’Almeida de um seminário sobre cinema marginal no Centro de Cultura Belo Horizonte. Na saída, descendo a Rua da Bahia, parou num dos botecos. Então, entrou um jovem negro com um objeto que parecia ser uma metralhadora. “Levantei os braços me rendendo, mas era um cavaquinho estilizado, ele tocou umas músicas, com letras próprias, logo me convidou para morar na casa dele, onde tem um estúdio, toca todo tipo de instrumento e grava. Ninguém conhece Ronaldo José de Souza, vou fazer um vídeo digital sobre esse cara”, garante o ator belo-horizontino.

E foi a organização desse mesmo curta-metragem que trouxe novamente Guará de volta à cidade, na última semana, quando conversou com a reportagem novamente no Centro de Cultura Belo Horizonte. Por mais insólito que pareça o projeto, tem tudo a ver com Guará Rodrigues, figura emblemática do cinema brasileiro, partícipe de mais de uma centena de filmes, seja como ator, diretor ou roteirista.

Não é fácil encontrar com Guará, mesmo porque, há muito ele optou por não ter residência fixa. Quando na terra natal, hospeda-se na casa onde foi criado, em Santa Tereza. Nos últimos anos, passou a maior parte do tempo no Sul da Bahia, mas é presença comum em São Paulo, Rio de Janeiro e em diversas cidades da Europa e da índia. Uma peregrinação que começou aos 12 anos, quando viajou pela primeira vez, para Ouro Preto.

Como escreve o doutor em cinema Luiz Nazario, que prepara o lançamento de um DVD e de um livro biográfico inédito sobre o ator, Guará conviveu na Paris da Nouvelle vague com François Truffaut e Jean-Luc Godard, foi ao cinema na Roma da “dolce vita” com Maria Schneider, virou junkie em Amsterdã nos anos de 1970, acompanhou Hitchcock nas filmagens de Frenesi em Londres – quando gravou também, como protagonista, Memórias de um estrangulador de loiras, de com Júlio Bressane. Fez nessa época a rota das drogas, entre Holanda e Índia, com uma câmera e um gravador, quando colheu imagens para o que considera o primeiro road-movie brasileiro, Boom Shankar – louvação que dá o iniciado ao inalar o cone de haxixe aceso.  “Fui para a Europa nos anos de 1970 com todos os filmes da Belair debaixo do braço, fugindo do regime militar”, diz o ator, sobre os longas da produtora de Julio Bressane e Rogério Sganzerla.

Pátria do cinema

Pouco desse material sobreviveu ao estilo de vida despojado de Guará. “Eu sou um cineasta, não faço TV e teatro. No cinema faço quase tudo, escrevo, dirijo, atuo – só não fiz fotografia até hoje porque tenho uns amigos fotógrafos que são melhores”, afirma. A vida na estrada tampouco é um problema. “Eu não sou mais eu, minha casa não é minha casa. Minha bagagem é tudo que cabe na mala Não tenho quadros do Renoir e Rembrandt porque não cabem na bagagem. Quem sou? Guará é silêncio”,  divaga o artista, que se diz cidadão da “pátria do cinema”. “Quando chego em qualquer lugar do mundo, vou logo procurando o pessoal que faz cinema e rapidamente estamos falando a mesma língua”, conta, sobre uma paixão que começou menino ainda, quando freqüentava sessões de filmes de guerra no Cine Santa Tereza para policiais militares. “Eu era uma das poucas pessoas em Belo Horizonte que assinava a Cahiers du Cinéma”.

Não é à toa que o livro autobiográfico que escreveu, entre 1985 e 1995, se intitula Memórias de um hóspede. “Queria ter dinheiro para editar esse livro com luxo e muitas fotos. Já trabalhei muito e queria ser recompensado. São memórias romanceadas das viagens, estou sempre hospedado, seja na mansão do governador, seja no barco de um pescador solitário”, diz esse leitor contumaz que costuma deixar como espólio na casa de seus anfitriões lotes de livros e, mesmo, latas de filme – a única cópia de Boom Shankar foi encontrada em 2000 na casa de um amigo paulista, em péssimas condições.

ARTISTA SEGUE FILOSOFIA NEO-HIPPIE

MARCELO FIUZA

Jornal O Tempo, Belo Horizonte, 10 out. 2004, Capa do Caderno Magazine

Na última terça feira, antes da entrevista, Guará Rodrigues lia Orientalism, de Edward Said, mas sua recente obsessão é o turco Ohran Pamuk., autor de New Life, de onde o ator pretende tirar o roteiro  de seu próximo filme. “É a história de um livro que muda a vida da pessoas com as palavras escritas, um romance que vou filmar no ano que vem”, diz. Outro projeto premente será na Bahia, onde uma amiga deve financiar um documentário sobre a criação de búfalos. “Vou misturar imagens de filmes de John Ford e Howard Hawks”, diz. Antes, porém pretende remontar Boom Shankar,  com novas imagens. “É a história das aventuras de Marco Pólo fragmentada, como os atores  Célia Messias e Luiz Fernando Guará ainda estão vivos, vou refilmar”, conta.

Se tantos projetos vão se concretizar, ninguém sabe, mas o fato é que a despeito de tantas idas e vindas, Guará mantém profícua produção. Na terça-feira que vem estréia em rede nacional – com exibição pela Rede Minas – O homem que botava ovo, curta de Rafael Conde no qual participa. Ainda inédito no circuito comercial, está O general, de Fábio Carvalho, com o ator como protagonista. De Thiago Mata Machado, participou do longa já em fase de finalização O quadrado de Joana. Filmou com Sérgio Bernardes Tamboro. De José Luiz Peixoto, participou da co-produção entre Cuba, Brasil e Espanha, Prazo de validade, um media-metragem. E de Rodrigo Amitem, atuou em Imagem mon amour, rodado na Praça Mauá, no Rio de Janeiro. Nazario produziu com ele Prisioneiros do Planeta Ornabi, no ano passado.

Produções inéditas e sem exibição. “Nunca faço nada pensando no que o público vai pensar ou onde a obra vai ser distribuída. As coisas pitam na vida, sigo essa filosofia neo-hippie. Sou um intelectual movido por idéias, tive a sorte de pertencer ao departamento de criação humana”, explica Guará.

LUIZ NAZARIO ORGANIZA TODA A FILMOGRAFIA DE GUARÁ RODRIGUES

MARCELO FIUZA

Jornal O Tempo, Belo Horizonte, 10 out. 2004, Caderno Magazine, p. 4.

Luiz Nazario define Guaracy Rodrigues como um personagem marginal do cinema brasileiro que percorre a história dessa arte desde os anos de 1960 até hoje: “Ele viveu todas as fases pelas quais esse cinema passou sempre de forma marginal, e isso me fascina”, conta o catedrático, professor-doutor da Escola de Belas Artes da UFMG, que organizou toda a filmografia do ator dentro do projeto Guará, o criminoso imaginário. “Guará é um ator que não é ator, ele vive os papéis e se confunde com os personagens, ele jamais fez teatro ou TV porque gosta desse universo cinematográfico e se confunde na medida em que a própria vida é um filme. Não é uma vida normal, é imaginária, ele não tem casa, bens ou propriedades: ele vive em casas de amigos, representando todo o tempo diversos papéis. Ele criou um personagem, o Guará, que vive tanto na realidade quando no cinema”, explica Nazario.

“Guará, o criminoso imaginário” é também o título de um ensaio escrito pelo estudioso em 1982, publicado na primeira versão do livro Da natureza dos monstros. “A partir desse livro, desenvolvi a filmografia completa do Guará, que não parou de trabalhar. No atual projeto, atualizo essa filmografia, amplio o ensaio e acrescento textos do ator. Há também entrevistas que fiz ao longo dos anos com ele e também o livro inédito, Memórias de um hóspede, além de todos os roteiros dele”.

Segundo Nazario, será necessário reescrever o livro autobiográfico: “Ele não é escritor, tem uma narrativa fragmentada, o conteúdo é muito interessante e vamos publicar tudo no mesmo pacote, juntamente com a fortuna crítica de Guará”, diz, referindo-se a uma seleção de reportagens e notas publicadas em jornais sobre o ator. O professor, que conta com o auxílio de um aluno bolsista financiado pela FAPEMIG para a tarefa, pretende concluir o projeto até dezembro de 2005: “Vamos publicar o livro com o DVD. Se entrarmos em alguma lei de incentivo, será uma edição de luxo, com fotos. Caso contrário, apenas com textos.” O DVD deve conter dois filmes que Nazario produziu com Guará recentemente, Sexo-verdade (2001) e Prisioneiros do Planeta Ornabi (2003), além de A diabólica (1985), filmado em Super-8. Guará participou também de outro projeto de Nazario, focado na obra do cineasta italiano Píer Paolo Pasolini, cujas imagens também serão incluídas no dito DVD.

CARREIRA

Confira alguns filmes do ator Guará Rodrigues (organização de Luiz Nazario).

1965: As aventuras de Guilherme Tell, de Carlos Alberto Prates.

1968: Jardim de guerra, de Neville d’Almeida.

1969: Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade.

1970: Piranhas do asfalto, de Neville.

1971: Memórias de um estrangulador de loiras, de Júlio Bressane.

1977: Anchieta José do Brasil, de Paulo Sarraceni.

1980: Eu te amo, de Arnaldo Jabor.

1982: Tabu, de Bressane; Rio Babilônia, de Neville.

1988: Luar sobre Parador, de Paul Mazursky.

1999: Brás Cubas, de Bressane.

1991: Matou a família e foi ao cinema, de Neville.

1995: Miramar, de Bressane.

1996: O lobo Guará, de Fábio Carvalho.

1997: A hora vagabunda, de Rafael Conde.

1999: Cansa-te nobremente!, de Guará Rodrigues.

2001: Samba-canção, de Conde.

GUARÁ: HOMENAGENS PÓSTUMAS

Convite para uma homenagem póstuma ao Guará

Teria Guará um dia imaginado que seu velório seria filmado à maneira do velório de Di Cavalcanti no único filme proibido até hoje no Brasil, por determinação da família do pintor, Di Cavalcanti Di Glauber, ou Ninguém assistiu ao formidável enterro de sua quimera, somente a ingratidão, essa pantera, foi sua companheira inseparável ou simplesmente Di-Glauber (1977), de Glauber Rocha? Com certeza. Um ator que viveu no imaginário – para o cinema, com o cinema, no cinema, do cinema – teria, sem dúvida, suposto para si uma morte cinemática. Guará, de fato, morreu assistindo a  algum filme na TV; foi velado por atores e cineastas (Paulo César Pereio, Maria Gladys, Isabel Lacerda, Neville D’Almeida, Geraldo Veloso, José Sette, entre outros amigos de toda a vida); e teve seu enterro documentado pela câmara do excelente fotógrafo Tony Nogueira, em imagens luminosas editadas por Chico de Paula no inusitado curta-metragem Guará, ladrão de estrelas (2006), de Fábio Carvalho, que já havia registrado o personagem passeando por Belo Horizonte em O lobo Guará (1996).

Em Belo Horizonte, em abril de 2006, foi organizada a pequena mostra “Homenagem ao Guará”,  na Sala Humberto Mauro, no Palácio das Artes, com a exibição de alguns dos últimos trabalhos de Guará em Minas Gerais. Estavam presentes: Gláucia Rodrigues (a irmã de Guará), Geraldo Veloso, Fábio Carvalho, Isabel Lacerda, Tony Nogueira, entre outros. No Rio de Janeiro, em setembro de 2006, Antonio Kleber de Araújo organizou para a “Fraternidade Secreta do Lobo Guará” um ciclo intitulado “Os Preferidos do Guará”, exibindo uma série de filmes entre aqueles que seus amigos se lembravam de tê-lo ouvido dizer alguma vez que estavam entre os que ele preferia acima de todos. Várias listas foram compiladas e comparadas até que a seleção foi montada: “Tenho certeza que nosso amigo estará presente como penetra em todas as sessões”, escreveu Araújo, que conseguiu junto ao Tempo Glauber a liberação de uma sala de projeção para 40 pessoas todas as terças-feiras das 20h00 às 23h00 para sediar o Cine-Clube Guará Rodrigues.

A mostra incluiu os filmes: Ikiru (Viver, 1952), de Akira Kurosawa; Strangers on a Train (Pacto sinistro) e Rope (Festim diabólico), de Alfred Hitchcock; Meet me in St. Louis (Agora seremos felizes, 1944), de Vincente Minnelli; The Hunchback of Notre Dame (O Corcunda de Notre Dame, 1939), de William Dieterle; The Grapes of Wrath (As vinhas da ira, 1940), de John Ford; Sunset Blvd. (Crepúsculo dos deuses, 1950), de Billy Wilder; The Night of the Hunter (O mensageiro do diabo, 1955), de Charles Laughton; Freaks (Monstros, 1932), de Tod Browning; Johnny Guitar (Johnny Guitar, 1954), de Nicholas Ray; Only Angels Have Wings (Paraíso infernal, 1939), Rio Bravo (Onde começa o inferno, 1959) e Rio Lobo (Rio Lobo, 1970), de Howard Hawks; Shock Corridor (Paixões que alucinam, 1963), de Samuel Fuller; e Notre Musique (Nossa música, 2004), de Jean-Luc Godard – embora eu esteja certo de que, entre os filmes desse cineasta, Guará teria preferido À bout de souffle (Acossado, 1960) ou Pierrot Le Fou (O demônio das onze horas, 1965). Lembrei-me então – lamentando eternamente – que não pude realizar com Guará vários projetos de curtas-metragens que havíamos planejado fazer juntos, entre os quais:

Psicanálise ao luar: uma sessão de análise de um jovem psicótico que se encontra num estado lastimável de pânico, numa noite de lua-cheia, pois imagina que se transformará num lobisomem. Guará, o psicanalista, apenas ouve, fazendo calmamente suas anotações. Por fim, diz: “Ele se imagina um lobisomem… Agora eu sei como curá-lo!” e se transforma num lobisomem de verdade, debruçando-se sobre o jovem para devorá-lo. O curta aludia ao final de Das Cabinet des Dr. Caligari (O gabinete do Dr. Caligari, 1920), de Robert Wiene,  materializando perversamente o conceito freudiano de transferência psicanalítica.

A maldição da Lua: Guará, em big close, seria a face da Lua, com seu olho direito furado por um foguete, numa perfeita reconstituição, quadro a quadro, da famosa cena de pastelão de Le Voyage à la Lune (Viagem à Lua, 1902), de Georges Méliès, com imagens em preto e branco tremidas e riscadas, como se tivessem sido realizadas na aurora do cinema.

Le pauvre chic: Guará encarnaria um mendigo refinado, com gestos elegantes, proferindo frases sofisticadas, entremeadas de citações cultas, pinçadas de livros de grandes autores encontrados nas lixeiras da cidade, abusando de expressões em francês e inglês, e selecionando, dos restos de comida dos restaurantes, apenas aqueles bocados que ele conseguia identificar como quitutes importados, da melhor qualidade.

Além desses curtas, projetamos, para sair de nossa pobreza crônica, escrever um best-seller de auto-ajuda a quatro mãos, intitulado Les Trois Savoirs. O livro seria dividido em três partes: 1. Savoir Vivre; 2. Savoir Faire; e 3. Savoir Être… Ríamos muito imaginando como os leitores de Paulo Coelho e quejandos poderiam usar nosso compêndio, deveras útil no mundo tosco atual.

Em maio de 2009, após ler, por acaso, a Lápide 002, dedicada ao Guará em Cemitério de Autores, o talentoso fotógrafo Cesar Barroso, que não sabia até então da morte do ator, despediu-se dele em seu blog Leia junto, onde recordou, numa sentida reflexão sobre a inexorável passagem do tempo, alguns de seus encontros com Guará durante as filmagens de Jardim de guerra (1970), de Neville D’Almeida e, logo depois, no exílio voluntário dos artistas brasileiros do underground, em Londres.

Assisti a Jardim de guerra há décadas, com o Guará, no Museu da Imagem e do Som em São Paulo. Há alguns anos, num encontro com Neville D’Almeida, este me disse que o filme – seria este mesmo ou Piranhas do asfalto (1971)? – estava desaparecido: ele mandara a cópia única para um festival na Europa e essa cópia nunca voltara. Em dúvida sobre o título desaparecido, procurando mais informações sobre isso, encontrei, por acaso, o blog Vinil Filmes, que digitalizou e publicou, sem minha autorização, a entrevista A representação segundo Guará, como uma forma de homenagem, e onde o autor do blog, um cineasta não identificado, cita o comentário de Helena Ignez no breve encontro que teve com ela: “Conhece o Guará? Ele é um ator fantástico”.

Em seu trabalho acadêmico de conclusão do Curso de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, Felipe Lessa e Lívia Ascava escreveram um livro-reportagem sobre a produtora Bel Air, de Rogério Sganzerla e Julio Bressane, destacando o importante papel de Guará nesta produtora de cinema, que teve uma vida curta, mas intensa.

Atualmente, Lucas Parente, no Rio de Janeiro, trabalha num projeto de vídeo reunindo tudo o que foi feito com Guará como ator-personagem. Ele conta com o apoio da produtora N-Imagem e de Sinai Sganzerla, que lhe cedeu os filmes dirigidos por Rogério Sganzerla nos quais Guará atou. O filme pretende ser uma nova ficção em que Guará aparecerá polifônico, numa somatória de vários momentos de sua vida retirados de diversas narrativas. Lucas considera Guará um dos grandes ícones do cinema nacional, esquecido como tantos outros. Deseja fazer um filme em que Guará, eterno coadjuvante, seja o “total protagonista”, mesclando o personagem e o ator.

O projeto de Lucas Parente parece responder ao apelo que fiz em 1983 no ensaio “Guará, o criminoso imaginário” (incluído na primeira edição do livro Da natureza dos monstros): “Sem avaliar com justiça suas potencialidades, os cineastas que o convidam para cameo’s roles ou pontas-relâmpagos (que um dia será preciso reunir) reservam-lhe momentos onde sua aura ganha novas luzes” (p. 41). O dia parece estar chegando: no filme de Parente veremos Guará por inteiro através de todos os seus luminosos fragmentos.

É este também o objetivo – mais modesto – do projeto Guará, o criminoso imaginário, que coordeno na Escola de Belas Artes desde 2001, e que deve encerrar-se com a finalização de um vídeo sobre a singular carreira do ator, comentada por críticos e cineastas (José Tavares de Barros, José Américo Ribeiro, Rafael Conde, Geraldo Veloso, Patrícia Moran); e pelo próprio Guará, num longo depoimento, uma espécie de testamento cinematográfico, que gravamos, como um estranho pressentimento, algumas semanas antes de sua morte.

Luiz Nazario

O PRÊMIO DO GUARÁ

O Prêmio do Guará. Foto: Marcelo La Onda

Marcelo La Onda, sobrinho de Guará, enviou-me esta foto do antigo quarto do ator em Santa Tereza, Belo Horizonte. Guará colocara lado a lado, sobre seu criado-mudo, um postal de James Dean que eu havia lhe enviado (creio) de Paris, e que ele enquadrara em homenagem ao seu ator-fetiche; e o Prêmio de Melhor Ator Coadjuvante do XXVII Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 1994 pelo filme Louco por cinema, de André Luiz de Oliveira. Guará orgulhava-se muito deste prêmio, que foi um dos poucos reconhecimentos que ele obteve como ator.

Luiz Nazario

GUARÁ, ENTRE OS 40 MENOS

Guará em Trancoso, 1981. Foto: Mário Queiroz

OS 40 ARTISTAS MENOS PODEROSOS DO BRASIL

Arnaldo Bloch

Do Jobi para o mundo, uma sondagem histórica

Semana passada, a revista Veja publicou uma reportagem de capa mostrando quem são os 40 artistas mais poderosos do Brasil. Diante de tal revelação, esta coluna resolveu sondar a base da pirâmide, formada pela grande massa cultural desprovida de poder, e publicar a lista dos 40 artistas menos poderosos, dando-lhes o devido (ou indevido) espaço.

Os nomes foram escolhidos na última segunda-feira, em conversa informal no Jobi, bairro do Leblon, Rio. O colegiado era formado por, no máximo, três pessoas reunidas por longas horas na mesa de votação, ou seja, a mesa do botequim.

O critério do pleito (além do pré-requisito de não estar na referida lista dos “mais”) é um critério múltiplo e bêbado, que reúne no mesmo saco as seguintes farinhas:

1) Injustiçados, que mereciam ter poder.

2) Justiçados, que não mereciam.

3) Os que não almejam poder.

4) Os que tiveram poder e perderam. (…)

O colunista, presidente da mesa, reserva-se o direito de não revelar quais nomes pertencem a que categorias, deixando ao leitor o ônus e o bônus de enquadrá-los de acordo com o bom ou o mau senso, sob os cuidados da própria consciência. Até porque a escolha foi feira com base na intuição. Intuição esta cada vez mais intuitiva, conforme o correr das horas e do chope.

Aos que acusarem de ser uma lista feita nas coxas, sem ferramentas estatísticas, eu responderei sem pestanejar, apesar da ressaca que me corrói: concordo plenamente. E digo mais: é o que lhe dá relevo.

Questão de ordem: para evitar, desde já, fazer inimigos entre os contemplados e seus familiares e amigos, o colunista, antes de divulgar o resultado da sondagem, elegeu-se corajosamente a si próprio (no que concordam os demais membros do colegiado com gritos de júbilo) como membro hors concours da lista dos “40 menos poderosos do país”, segundo critérios tão óbvios quando obscuros.

Por outro lado, certo de que muitos se desejariam incluídos estarão ausentes da seleção final, esclareço que esta não se pretende definitiva. Pelo contrário: contestá-la, contribuir com outros nomes, questionar seu conceito (o pessoal adora questionar um conceito), deletá-la para começar tudo de novo são procedimentos recomendáveis e saudáveis, deveres de cidadania, bastando enviar e-mails para esta coluna. Afinal, se os mais poderosos se contam em 40 dedos, os menos certamente, contam-se aos milhares, e isto é apenas um primeiro passo rumo à revolução dos excluídos culturais e a criação do MSPC (Movimento dos Sem Poder Cultural).

Transcorrido o lero-lero, passemos à divulgação dos nomes organizados em pares ou trios, de acordo com afinidades fonéticas, rimas pobres, mimetismos e associações livres de idéias. A ordem é aleatória: foi impossível formar um ranking nas condições cognitivas dos votantes

Leia a seguir (finalmente) a lista dos “40 artistas menos poderosos do Brasil”, da toalha de papel do Jobi para o mundo!

* Tom Zé, Arrigo Barnabé e Jards Macalé.

* Lucélia Santos e Baby Consuelo do B.

* Guilherme Fontes e Guilherme Arantes.

* Francisco Weffort, Wando e Oswaldo Montenegro (apesar da Paloma Duarte).

* Roberto Leal e Nuno Leal Maia.

* Juca Chaves e Ipojuca Pontes.

* Lobão e Jorge Salomão.

* Marília Pêra e Maria della Costa.

* Gerald Thomas e Jeff Thomas.

* Prefeito Fortuna, Palhaço Carequinha e Daniel Azulay.

* Claudia Ohana, Yana Purim e… Hanna (a legítima, seja quem for).

* Guará Rodrigues e Claufe Rodrigues.

* Agnaldo Timóteo e Agnaldo Rayol.

* Sidney Magal e Gal.

* Milton Guedes e Fátima Guedes.

* Léo Gandelman e Nelson Ned.

* Zeca Baleiro e Helô Pinheiro.

* Tiririca e Tiazinha.

Fonte: BLOCH, Arnaldo. Os 40 artistas menos poderosos do Brasil. Jornal O Globo, Segundo Caderno, 9 ago. 2003.

MICRODEBATE SOBRE JEAN-LUC GODARD

Guará em São Paulo. Foto: Luiz Nazario

CARTOLA SEM COELHO

Paulo Henrique Silva   

Enquanto o professor Luiz Nazario acusava os cineastas europeus de buscarem imitar, em vão, o cinema de Hollywood, o ator Guará Rodrigues não poupou adjetivos negativos para os filmes da indústria. “É tudo uma m…, um lixo, o que eles fazem é o espetáculo pirotécnico”, defendeu. Menos radical, José Tavares de Barros concedeu para si o prêmio de “Saco de Ouro”. “Gosto de todos os tipos de filmes, até uma fita de ação como A outra face, de John Woo”, explicou. Fábio Carvalho preferiu aqui não se manifestar. Confira o bate-papo realizado após a sessão do filme JLG por JLG – Auto-retrato de dezembro, de Jean-Luc Godard:   

LUIZ NAZARIO: O Godard continua colocando na tela um monte de livros, quadros, filosofias, frases feitas, enfim, ele não modificou sua linguagem. Continua fazendo o mesmo cinema que fazia nos anos 1950-1960. É uma falta de criatividade do artista; Godard não se adaptou ao tempo.   

GUARÁ RODRIGUES: Todos os grandes cineastas fizeram o mesmo filme a vida toda, com a mesma equipe e os mesmo atores. Alfred Hitchcock e Howard Hawks fizeram isso.   

LUIZ NAZARIO: O estilo é o mesmo, mas será que o inimigo continua sendo o mesmo dos anos 60?   

JOSÉ TAVARES DE BARROS: Coerência há, mas concordo com Nazario que os tempos mudaram e Godard se repete. Na verdade, só fui movido a ver JLG por JLG por causa desde debate, pois, do contrário, ia esperar sair em vídeo.   

LUIZ NAZARIO: Acho que há uma diferença entre ver o mesmo filme prazeroso, agradável, bonito e fazer durante 30 anos o mesmo filme chato. JLG por JLG é crepuscular. Tem aquelas pinturas crepusculares, a luz de vela, o inverno, o amarelo da paisagem que é despovoada. É algo próximo da morte. Parece que Godard está esperando a morte.   

GUARÁ RODRIGUES: Eu me divirto mais vendo um filme de Godard do que outra coisa. Saio mais leve do cinema, é como ler um bom livro.   

JOSÉ TAVARES DE BARROS: Mas vejo uma grande diferença entre os outros filmes de Godard e JLG por JLG. Este último é uma tentativa curiosa dele mesmo esmiuçar, de fazer uma autocrítica. É igual a uma cartola de mágico, só que dela não sai nada.   

LUIZ NAZARIO: Isso é verdade. Você sempre vai a um filme de Godard esperando alguma coisa e ele nunca tira esse coelho da cartola.   

Fonte: SILVA, Paulo Henrique. Cartola sem coelho. Debate sobre o filme  JLG por JLG – Auto-retrato de dezembro, de Jean-Luc Godard, com José Tavares de Barros, Guará Rodrigues e Luiz Nazario. Jornal Hoje em Dia, Belo Horizonte, Caderno Cultura, p. 1, 23 set. 1997.

A REPRESENTAÇÃO SEGUNDO GUARÁ

Guará em Trancoso. Foto: Dudi Gupper

Em 1980, imaginei um livro de entrevistas com Guará, a ser escrito pelo correio, sobre o tema da representação. Minha curiosidade foi maior que sua disposição, e nosso livro ficou reduzido a esta entrevista inédita (Luiz Nazario).  

LN: Em La Notte, Michelangelo Antonioni fez uma experiência com Jeanne Moreau: terminadas as cenas com ela, continuava a rodar o filme, registrando os momentos em que a atriz, deixando de ser a personagem, não era ainda a pessoa. Como um ator vive esses momentos? Que relação há entre a pessoa, a personagem e esse ser intermediário?  

Guará: Baseado na minha experiência, não existe esse ser intermediário. O que existe quando se termina um plano é a crítica do que se fez. Uma crítica quase técnica. O ser intermediário não passa de uma sofisticação de intelectuais europeus. Essa frase não tem nada de pejorativo, pois amo a sofisticação, a Europa em geral e as culturas italiana e francesa em particular. Agora, a relação entre a pessoa (ator/atriz) e a personagem é outro papo. Um papo nada sutil. É quase violento. A mim a personagem me possui inteiramente, com a força que o demônio possui Rosário, no filme que escrevi para o Neville D’Almeida, Piranhas do asfalto.  

LN: Quando a personagem o possui, como um demônio, é para que você se esqueça de seu corpo? Representar é uma forma de não assumir o corpo através de sua instrumentalização?  

Guará: Meu corpo nunca está em jogo, a não ser como manifestação sensual da personagem. Ao mesmo tempo, na imagem, o corpo é a única coisa que domino, isto é, que não me causa surpresa quando o vejo filmado, principalmente se ele é decomposto, quer dizer: close-up das mãos, da sola dos pés, dos órgãos sexuais, dos olhos, dos lábios fechados entre os quais surge a língua úmida, etc. Enfim, o meu corpo está sempre assumido, não penso mais nele, mas não o esqueço: ele já não me pertence, pertence à personagem. Fui chamado pelo meu amigo Gilberto Loureiro para fazer um corcunda no seu próximo filme. Aí, sim, meu corpo vai ser literalmente instrumentalizado – é uma caracterização. Estou pensando em algo assim como Charles Laughton em The Hunckback of Notre Dame. O corpo se transforma numa obsessão… Mas não se pode perder o humor, como Charles, naquele plano memorável dizendo: “I’m not a man, I’m not a beast”. Qual a sua formação de ator? Guará: Minha formação de ator é a forma-ação. A forma: o diretor, o diretor de fotografia, o figurinista, o cenógrafo, o script, a equipe enfim. À palavra “ação”, eu me transformo em ator. À palavra “corta”, volto a ser Guará (personagem/ pessoa/ ator).  

LN: Quais os seus atores preferidos?  

Guará: Richard Dreyfuss, Zbigniew Cybulski, Gérard Philipe e todos aqueles monstros sagrados do velho cinema americano: Bette Davis, Humphrey Bogart, etc. E também qualquer ator dirigido por Alfred Hitchcock, até mesmo Doris Day em The Man Who Knew Too Much. E Edgar Buchanan, o juiz de Guns in the afternoon, e também Warren Oates. De qualquer maneira, atualmente estou parado na de Richard Dreyfuss.  

LN: Quando veio a noção de representar?  

Guará: Creio que com a primeira mentira. Quando se mente é preciso elaborar, iludir, ser uma outra pessoa sem renunciar ao que você é. Depois, socialmente, a grande mentira, você tem que representar sempre.  

LN: A representação nasce na família – no teatro do pai e da mãe – ou num desejo constante de ser outro?  

Guará: O teatro do pai e da mãe, como casa de espetáculo, tendo eles como espectadores, é realmente muito interessante e incentivador para o jovem ator (o filho), mas sendo eles o espetáculo em si, é mais uma novela de Janete Clair do que teatro. Por outro lado, os pais, como diretores, são muito ditatoriais. O desejo constante de ser outro… isso não existe. Eu não desejo ser outro quando represento, eu quero ser eu mesmo enquanto outra pessoa. Quer dizer, eu quero me colocar no interior de outro ser (personagem) e o transformar para o bem ou para o mal.  

LN: Fale das suas decepções, no cinema, de ver sua imagem apreendida de forma diversa daquela que havia imaginado, da diferença que existe entre o sonho da representação e a sua realidade, da montagem enfim, que destrói… o quê?  

Guará: O cinema nunca me decepcionou como criação. Existe a decepção quanto às dimensões. Você sabe, o cinema tem a limitação das suas dimensões. Por outro lado, você idealiza, digamos, um plano que fez e, quando o vê, depois de um tempo, o tempo da revelação – revelação do negativo e revelação no sentido amplo –, você já amadureceu mais um pouco e pensa: “Isso poderia ser feito assim… de uma maneira mais perfeita”, ou “está tudo errado, não é nada disso”. Não se pode retocar, como na pintura, ou jogar fora ou rasgar, como se faz com uma fotografia. A perfeita representação ou a representação perfeita só existe em toda a sua sutileza na vida real. A cronologia é a montadora ideal. A montagem do cinema é arbitrária. Destrói a ordem interna do ator.

GUARÁ, ATOR E ‘BON VIVANT’

Guará e Luiz Nazario em pausa de filmagem de “A hora vagabunda”, de Rafael Conde 

Belo Horizonte, 11 de janeiro de 2010       

Comemorando a data de aniversário de Guaracy Rodrigues (Belo Horizonte, 1941-2006), inauguro este espaço de memória para recordar alguns momentos de sua singular trajetória no cinema. Guará – como era conhecido – deixou saudades naqueles que tiveram o privilégio de acompanhar sua carreira e usufruir de seu bom humor, de sua alegria de viver, de seus geniais insights filosóficos e de suas inesgotáveis  memórias cinematográficas. Postarei regularmente imagens e textos do arquivo pessoal que Guará me legou, recordando sua carreira de ator errante, em quase uma centena de filmes, rodados em diversas cidades do Brasil, e também na Inglaterra, na Índia, no Afeganistão. 

As fotografias e os recortes de jornal do Arquivo Guará  foram digitalizados por Luiz Amaral; as memórias inéditas de Guará, por Leonardo Farias; os DVDs da Trilogia Guará e o DVD Fantasias de Pasolini, que incluem as últimos trabalhos do ator, autorados por Marcelo La Carretta – ex-bolsistas do Projeto Guará Rodrigues, desenvolvido na Escola de Belas Artes da UFMG.  Se algum autor ou personagem  incluído no Arquivo Guará desejar sua exclusão dele,  basta enviar-nos uma mensagem que terá a contribuição imediatamente retirada. Mas espero contar com a boa vontade e a colaboração dos amigos do Guará para o enriquecimento deste memorial sem fins lucrativos, com postagens de assuntos relacionados e informações que ajudem a identificar os autores das imagens e os coadjuvantes das cenas da vida boêmia de Guará, ator e bon vivant.

Luiz Nazario

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