GUARÁ, UM FILME INACABADO

Guará, por Antonio Guerreiro.

Depois de gravar, com Guaracy Rodrigues, o Guará, os vídeos Sexo-verdade (2001) e Os prisioneiros do planeta Ornabi (2002-2003), eu iniciei na Escola de Belas Artes um projeto de recuperação da filmografia desse excepcional ator mineiro, cuja carreira pude acompanhar de perto ao longo das últimas décadas. O projeto Guará: o criminoso imaginário recupera parte da memória visual do cinema brasileiro na pessoa de um dos mais ativos figurantes de nossas telas. O projeto comporta a edição de um livro-DVD sobre Guará, incluindo os roteiros escritos ou co-escritos por Guará, todos inéditos; o ensaio Guará, o criminoso imaginário (1982) revisto e ampliado; a entrevista A representação segundo Guará (1985) realizada através de uma troca de cartas com o ator; o vídeo Entrevista com Guará (2004), realizado pouco antes de sua morte; um clipping de imprensa cobrindo sua estranha carreira; sua filmografia completa; por Guará; o book intitulado Anatomia de um monstro, composto por cerca de 70 fotografias em cor e p&b; a inédita novela autobiográfica Memórias de um hóspede; e uma coletânea das aparições de Guará no cinema brasileiro.

Nascido em Belo Horizonte, Guará não tinha residência fixa, mas podia ser encontrado em toda parte: ele estava onde as coisas aconteciam. Depois de estudar no Centro de Estudos Cinematogrçficos, acompanhando o primeiro curso de cinema na PUC de Minas, ganhou uma bolsa para o curso de cinema ministrado por Arne Sucksdorff, no Rio de Janeiro, promovido pela UNESCO e pelo Itamarati, e que formou Arnaldo Jabor e outros diretores. Guará iniciou sua carreira no mundo do cinema como assistente de direção de Roberto Santos, e logo passou a integrar a equipe de Julio Bressane, como técnico e ator em uma dezena de produções da Bel-Air.

Desde então, filmes, sonhos e viagens mesclaram-se na trajetória de Guará pelo mundo. Na Paris da nouvelle-vague, conviveu com François Truffaut e Jean-Luc Godard. Na Roma da dolce vita ia ao cinema na companhia de Joe d’Alessandro e Maria Schneider. Na Amsterdã dos hippies, embarcou nas sessões malditas do Milkway e na festa dos tolos em pontes medievais e jardins de papoulas, dançando com a cantora Nico depois de assistir a Nasce uma estrela. Na swinging London, buscou inspiração junto a Alfred Hitchcock nas filmagens de Frenesi e estrelou Memórias de um estrangulador de loiras, o filme mudo de Julio Bressane que fez sensação em sua estréia no Eletric Cinema.

Depois, reencarnando Sabu no Oriente, Guará flutuou com o Taj Mahal na palma de Deus, e filmou, entre 1970 e 1971, suas viagens em jangadas de junco e tapetes voadores, no primeiro road movie brasileiro: Boom Shankar, rodado em 16mm com uma câmera Éclair ACL e um gravador Nagra 4, em pleno movimento underground, na célebre “rota das drogas”, que ele seguiu desde Amsterdã até Goa, passando pela Turquia e pelo Afeganistão. Com uma pré-edição de Tony Nogueira, o filme foi o primeiro roadmovie brasileiro, um raro documento da época – cinema de poesia, erótico e experimental. Filmado há 27 anos, o material com 2 horas de filme 16mm positivo foi encontrado em 2000 dentro de uma mala de metal esquecida há tempos na casa de um amigo de Guará. Eu mantive o filme guardado à espera de um apoio ao projeto, mas Guará me pediu a mala de metal com os rolos de filme ao reencontrar um amigo disposto a ajudá-lo a editar o filme em São Paulo. Durante a edição Guará se desentendeu com o amigo e voltou sem a mala, que se encontra novamente perdida…

Na mesma época, Guará filmou cenas do cotidiano do Afeganistão e da Índia, em dois documentários para a BBC de Londres: Dogs Fights e Snake Charmeurs. E não se furtou a fazer figurações nos estúdios de cinema de Bombaim, aparecendo em dois filmes indianos cujos títulos nunca soube e cujos diretores jamais encontrou. De volta ao Brasil, Guará tornou-se o ator mais procurado para encarnar papéis de vilões, estupradores, assassinos, loucos e políticos. Curiosamente, foi no papel atípico de um psiquiatra, em Louco por Cinema, que ele ganhou, em 1994, no Festival de Cinema de Brasília, o prêmio Candango de melhor ator coadjuvante.

Nos últimos anos, Guará transformou-se numa personalidade cult contando entre seus admiradores com o ator Robert De Niro e o cineasta Paul Mazursky. Este realizou um velho sonho de Guará, reservando-lhe um papel em Luar sobre Parador onde ele contracenou com Richard Dreyfus, um dos atores que então mais admirava. As aparições de Guará em filmes undergound, hoje clássicos, são aplaudidas pelos espectadores do National Film Theater, em Londres; da Cinemathèque Française, em Paris; e até pelo Papa, na Cinemateca do Vaticano (claro: essa foi uma das histórias que o Guará me contou, sem se preocupar em entrar em detalhes).

Também nacionalmente, depois de longo esquecimento, Guará voltou a ser reconhecido: graças a leis de incentivo, o cineasta mineiro Fábio Carvalho destacou sua presença em O general e dedicou-lhe O lobo Guará; e os jovens cineastas Rafael Conde, Tiago Mata Machado, Patrícia Moran convidaram o ator para participar de suas produções, dentre as quais se destacou o divertido Samba-canção. Mas Guará ainda não teve sua carreira registrada em livro ilustrado, com sua filmografia completa.

Em quase vinte anos de pesquisa sobre Guará, acumulei histórias inéditas e imagens raras. Entre tantos casos de bastidores que Guará adorava me contar, lembro-me de uma bastante picante: um jovem ator amigo seu dissera-lhe que o pai dele arrumava garotos fortes e bonitos, de preferência negros, durante as filmagens de It’s all true, no Rio de Janeiro, para fazer amor com Orson Welles. Essa indiscreção confirmava um artigo escrito de forma cifrada por Gore Vidal sobre os subtons homoeróticos insinuados pelo barroquismo cinematográfico de Welles, e minhas próprias análises da perversão fílmica presente na escritura de seus filmes noir.

Já se editaram livros sobre grandes atores do teatro brasileiro, como Cacilda Becker, Marília Pera, Paulo Autran; a coleção Aplauso! é uma iniciativa louvável neste sentido; trata-se, agora, de recuperar a memória dos atores do cinema brasileiro e, no caso de Guará, dos figurantes capazes de sobreviver a todas as tempestades que se abateram sobre a indústria do cinema nacional, e que permanecem, a despeito de uma carreira multifacetada, desconhecidos do grande público. Guará, além de ser um dos mais ativos figurantes de nossas telas, seguiu a tradição de Wilson Grey, mas subvertendo as características do figurante, ao transformar-se – para os cinéfilos – na verdadeira estrela cult dos filmes em que aparecia, tal como o grande ator Desmond Llewelyn, o “Mr. Q” dos filmes de James Bond.

Nos últimos anos, Guará transformou-se numa personalidade cult no mundo inteiro, contando, entre seus admiradores, com o ator Robert De Niro e o cineasta Paul Mazursky. Este realizou um velho sonho de Guará, reservandolhe um papel em Luar sobre Parador onde ele contracena com Richard Dreyfus, um dos atores que então mais admirava. As aparições de Guará em filmes undergound, hoje clássicos, são aplaudidas pelos espectadores do National Film Theater, em Londres; ou da Cinematèque Française, em Paris; e até pelo Papa, na Cinemateca do Vaticano.

Guará sempre me telefonava, estivesse ele em Trancoso, Brasília, Rio de Janeiro, Belo Horizonte ou São Paulo, para mantermos longas conversas sobre o horror em que se transformou o nosso mundo. Lembro-me de um desses telefonemas, do dia 2 de janeiro de 1995, quando Guará comentou comigo o que vira no dia anterior na TV:

– Ontem assisti à transmissão da posse do Fernando Henrique Cardoso. O apresentador da Manchete estava insuportável. Disse que seriam dados vinte e um tiros por cinco canhões. Isto queria dizer que quatro canhões dariam cinco tiros e um teria que dar seis tiros. Qual canhão seria? O da esquerda, o da direita, ou um dos três do centro? O locutor achava que deveria ser um dos três do centro, provavelmente o do centro mais à esquerda, mas ele não tinha certeza. Acreditava que sim, afinal eram cinco tiros a serem dados por cinco canhões, menos um, que daria seis tiros, e ele ficou refletindo sobre isso. Até que chegou um momento em que eu não aguentei mais e mudei de canal. Agora penso que deveria ter ficado ouvindo até o fim, para saber qual foi o canhão que atirou e se o repórter estava certo ou errado… e tenho a impressão de que ele contou de novo toda a história, do começo ao fim, comprovando suas hipósteses à luz dos novos fatos… Sim, eu deveria ter assistido à transmissão da posse até o fim, para saber até onde o reporter ia chegar!

Freqüentemente, lamentávamos a pobreza do cinema de nossos dias:

Guará: – Choro com alguns planos de Ford, de Hitchcock…

– E pensar que houve um Hitchcock no cinema, e que não haverá outro jamais…

Guará: – Ninguém que faça igual…

– Nem Spielberg, nem de Palma, ninguém entende que Hitchcock é mais que uma linguagem, é uma antropologia!

Guará: – Sem Hitchcock, a vida perdeu o sentido.

Tantas histórias… A convivência com Guará enriqueceu minha vida de muitos momentos mágicos. Ao mesmo tempo em que eu gozava esses momentos, sem poder compartilhá-los com ninguém, eu pressentia que nossos encontros memoráveis e nossas conversas repletas de absurdo e comicidade logo estariam perdidas para sempre, como cenas de um filme maravilhoso que somente eu pudera ver – sem poder gravar e exibir aos amigos, ao público, um filme que se apagava no instante mesmo em que eu o via, sem deixar traços. Por isso comecei a renir, enquanto ainda podiam ser recuperados, documentos, fotos e registros de uma existência mítica. Procurei capturar uma lenda viva em plena fuga, imprimindo na memória objetiva do mundo algo de efetivamente ilusório e essencialmente verdadeiro, que não pode ser fixado: a existência vivida como um sonho por um monstro sagrado de um cinema que nunca existiu.

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