GUARÁ, O CRIMINOSO IMAGINÁRIO

Guará em São Paulo. Foto: Luiz Nazario.

Este ensaio foi publicado na primeira edição de meu livro Da natureza dos monstros, Edição do Autor, São Paulo, 1983, p. 35-44. O ensaio incluía uma filmografia parcial, que suprimi aqui, por estar então ainda incompleta e porque devo publicar em breve a filmografia completa de Guará. O texto foi também revisto e acrescentado de alguns parágrafos.

O crime é a pedra lançada no charco estagnado. O detetive faz o diagnóstico. O seu trabalho é estudar as rugas à superfície da água e descobrir a pedra que a perturbou.

Alfred Hitchcock

Numa sociedade criminosa é preciso ser criminoso.

Marquês de Sade

Em 1979, reconheci, durante uma pré-estréia, uma sombra que me era familiar: barbudo, vestindo uma camisa florida, lembrava-me o ator de Memórias de um estrangulador de loiras. Na noite seguinte, tornei a encontrá-lo no lançamento de um disco. “Você não é o estrangulador de loiras?”, perguntei. “Sou eu mesmo”, ele respondeu. Trocamos algumas palavras e ele pareceu entusiasmado: “Finalmente encontrei alguém no meu nível”, revelou a um amigo, tomando dele um maço de cigarros, no qual anotou meu telefone.

Guará não me telefonou: encontrei-o novamente por acaso: estava de viagem e deu-me entradas para ver A opção. Na saída do auditório, vi-me cercado pelos aleijados, prostitutas e marginais que compunham o elenco do filme de Ozualdo Candeias. De volta a São Paulo, Guará ligou-me insistindo para que eu fosse assistir às conferências de Buckminster Füller sobre o futuro da humanidade. “Quem é Buckminster Füller?”, quis saber. “É um gênio que inventou o domo geodésico”. Fui por curiosidade: numa das conferências, a loira que ajudava o “gênio” com os microfones chegou a irritá-lo tanto que ele a expulsou do palco aos berros de “não sei o que as loiras têm a ver com a física de Einstein!”. Tratava-se de um paranóico, cujo pensamento evoluía em fórmulas como: x é y; z é r; portanto, f é k.

Outra noite, Guará convidou-me para assistir à projeção de uma série de slides que fizera em Goa. As fotografias eram muito bonitas, especialmente uma, em que ele aparecia nu ao lado de um grande barco, como um Robinson Crusoé em sua ilha de areia cercada de azul por todos os lados. Mostrou-me seus filmes, seus quadros. Ele se objetivava nas coisas e se exibia através delas, não de uma forma neurótica, mas para que gostássemos dele através de suas objetivações. Entregava-se totalmente sem pedir nada em troca – uma forma pura de generosidade, diferente daquela em que há uma recuperação do elogio às objetivações na forma mesma da exibição.

O cinema e o sexo eram os “territórios” de Guará. Logo me contou sobre um amigo seu que conseguia sorver, deliciado, o esperma do próprio falo; sobre as aborrecidas bacanais que freqüentara com outros artistas brasileiros em Londres; sobre o gosto esquisito de um famoso empresário que sentia prazer quando defecavam em seu rosto; sobre conhecidos seus que se estimulavam sexualmente com parceiras aleijadas. Embora possuísse uma sensibilidade feminina, tudo em Guará era exacerbadamente masculino. “Gosto das coisas viris”, disse-me noutra ocasião, tentando esclarecer sua misoginia, “mas não posso odiar as mulheres porque tenho mãe, irmãs, amantes”. Ele também manifestava, em relação aos homossexuais, uma espécie de rancor sádico. Odiava travestis e lésbicas em geral, e quando soube que eu gostava de Ângela Rô Rô, disse-me que ela era um câncer que se alastrava pelo mundo. Como eu discordasse, afirmou: “Mas ela também é minha amiga”. O que Guará não conseguia destruir, anexava.

Ele tinha paranóias singulares, como a de nunca entrar num cinema antes que as luzes se apagassem, e de se ver desdobrado, algumas vezes, andando pelas ruas. Justificando sua impossibilidade de ganhar dinheiro alienando seu corpo, afirmava ter resolvido prolongar um pouco sua adolescência, tendo já passado dos quarenta. E, assim, Guará carrega, no corpo e na alma, as cicatrizes e poluições de crimes perpetrados ao longo de uma existência underground. E é como se uma aura o protegesse das deformações que a matéria histórica inflige à essência humana. Não foi engajado pelos acontecimentos, sexualizado pelo sexo, drogado pelas drogas, mistificado pelo oriente, glamorizado pelo cinema. Talvez a própria morte não encontre nele certas repercussões naturais.

Convivendo com a bestialidade – o mesmo à vontade de James Dean tocando tuba para suínos exibe Guará na porcaria do cinema nacional – conserva a pureza original de um recém-nascido. Não a de um recém-nascido comum: a pureza original de um recém-nascido Frankenstein. Pois é com inocência que ele sonha com um apocalipse nuclear para salvar a humanidade, que ele suspeita as mulheres de serem a escória da sociedade, que ele admira os vilões da história e confia na inteligência das massas. Se Guará viesse à rua de revólver em punho, atirando ao acaso, tanto quanto possível, sobre a multidão, realizaria o mais simples dos atos surrealistas, tal como o definiu Breton, e escaparia ileso, como o poeta assassino de Buñuel, distribuindo autógrafos após a condenação do tribunal. Toda realidade que este duende toca transforma-se em imaginação.

Em Guará, a nostalgia de Édipo vem em ondas de ira contra o imperialismo americano (o pai) e de paixão pelo cinema americano (a mãe), no qual “mama”, como declarou certa vez. Trata-se de um artifício da espécie de paranóia com que se arma a criatura do Dr. Frankenstein contra a paranóia dos homens: vendo o mundo com os olhos puros de um esquizofrênico, adere à imagem monstruosa que dele fazem os humanos, sucumbindo à vontade de poder. Todos os papéis que Guará interpreta passam esta imagem de líder, chefe, dono ou patrão – de pai – que ele acaricia inconscientemente.

O olho de Deus fixado em Caim, o olho de Cristo sobre todas as camas, o olho da televisão em todas as salas, o olho das lanternas em todas as sombras, o olho dos holofotes em todas as fugas, o olho mágico em todas as portas, o olho dos semáforos em todas as esquinas, o olho dos olheiros em todas as celas, o olho do vizinho atrás de todas as janelas, o olho-de-lince no emblema dos detetives particulares… são tantos os olhos que vasculham e condenam, de um ponto de vista transcendental, que através dessa luz a culpa se infiltra no transgressor potencial ou efetivo das normas até os ossos – ameaçando-o, para que não tente; deformando-o, para que se arrependa: para que não pense mais “nisso”. Acossado, e para manter-se gratificado, Guará abole, num ato de vontade, o princípio de realidade. Filho ingrato do liberalismo, dispensa a legalização de seus crimes: não lhe faz falta a permissão do pai – que imaginariamente matou – para aquilo que não concebe como um crime – e que realmente pratica.

O criminoso imaginário é indiferente aos destinos da humanidade: ilude-se com a morte do pai como eliminação da paternidade. Culpa ora o social, ora o feminino, pelo que é – mas gosta muito de ser o que é para ser capaz de mudar. Há suficientes bodes expiatórios para mantê-lo na sua querida irresponsabilidade. Defende-se contra inimigos imaginários: dá razão a todos, para guardar a sua; sabe-se genial e diz-se um imbecil; oscila rapidamente do orgulho à vergonha: não se perdoa o ter abandonado a subjetividade no instante mesmo em que a descobriu; não aproveita, tampouco, os trapos que dela conserva. Porque faz o que é proibido ele se acredita livre. Mas há grandes regiões de prazer fatais ao desejo; caindo na armadilha do sado-masoquismo, o criminoso imaginário tende à degradação do prazer. Enquanto se mantém imerso no imaginário, protegido em seus limites, não pode cometer o crime perfeito: este só existe a partir do confronto com a lei, realiza-se a despeito e com o concurso do princípio de realidade existente, para manter sua lembrança no fim da execução do único crime que compensa (o inconsciente só é simpático ao criminoso perfeito e ao criminoso morto).

A aventura do homem livre – o criminoso perfeito – é solitária; seu projeto é matar a paternidade, mais do que o próprio pai. Para tanto, não pode alimentar ilusões; só conta com uma chance e nos seus cálculos entra o destino de toda a humanidade. Sem superego, não precisa superar complexos; aceita o desafio da realidade – sabe-se vencedor. Ladrão que faz a ocasião, é o ator perfeito representando a farsa da legalidade para preservar da punição todas as suas transgressões. A natureza do crime perfeito é qualitativamente diferente da do crime comum. Também não é aquele que jamais será descoberto, mas o que não o foi ao seu tempo, que só se dá como perfeito no futuro, quando seu mecanismo é revelado e demonstrado como e por que não poderia ter sido descoberto.

Assim, crimes perfeitos são as obras de arte que permanecem, as relações de amor e amizade que resistem ao mundo, os acontecimentos que fazem a humanidade sem tempo ou lugar explodir de emoção. Nada de limpo nestes crimes: através deles, o sangue escorre como através de qualquer outro. A diferença é que não escorre em vão. O crime perfeito manifesta o que não se esmaga impunemente: sua sobrevivência através das catástrofes, dos acidentes, das agressões, do terror e do prático-inerte é a possibilidade da revolta contra a história. Por isso o investigador comum jamais poderá capturar o criminoso perfeito: vivem num mesmo espaço, mas não num mesmo tempo. O local do crime pode ser descoberto: seu tempo e agente, só mais tarde e tarde demais. É este jogo com o tempo que conta para a perfeição de um crime.

A instituição policial postula a inexistência do crime perfeito: o vazio da captura seria apenas devido à falta de investigação ali onde o culpado escorregou das malhas da lei. Esta noção vulgar prepara a necessidade de vigilância e coerção totais. Mas a ingenuidade do investigador comum é flagrante: a investigação perfeita – que ele não ousa realizar – seria, ela também, um crime perfeito, e não o triunfo da morte, como queria o pobre diabo. Ao contrário de si, o investigador perfeito tem plena consciência de sua criminalidade: age em nome de uma lei a cujo sentido é alheio; é na obra de investigação que reside seu desejo. Difere do criminoso perfeito por ser ativo, mas ambos inutilizam Deus arrebatando-lhe o poder de criar. O investigador comum também queria imortalizar-se, mas aderindo a um sistema que garante ser imortal; precisa de Deus para dele se aparentar, conservando a transcendência em sua imanência de subhomem. Somente o conceito radical da inexistência de Édipo substitui os discursos parciais da sociedade pelo discurso universal da humanidade.

O sonho de Guará teria sido o de ser um filósofo da matemática: a família, essa gostosa casa de chocolate onde prendem e engordam as crianças para a sopa da velha bruxa, destruiu o seu sonho – mas não a lembrança de uma possível felicidade. As reminiscências de um futuro pleno, o olhar atirado para longe, esta sede de absoluto permanecem: Guará encarna, depois de Greta Garbo, o mito “decadente” da diva: vem desta encarnação a aura de Guará, que ele inconscientemente resume num pensamento chave: “O homem é o que é”. Este princípio absurdo (já que o homem é o que faz) protege-o contra as mentiras de sua vida. Sendo o que sonha, não importa o que realiza: filmes, crimes, contatos – são fantasias da realidade.

Ao invés de transformar-se sem cessar no embate com a realidade, Guará escolheu habitar no imaginário, representando na vida e vivendo na representação. Como Anna Magnani, em Le Carrosse d’Or, de Jean Renoir, poderia dizer: “Onde termina o teatro? Onde começa a vida?” Ele não se cansa de ver e rever os filmes que ama – às vezes vinte vezes – para ingressar, imaginariamente, naquele universo perfeito. Noutro passe de mágica, inclui em seus filmes cenas de filmes clássicos, para obter a sensação de neles ter atuado. Assistindo ao mais insignificante espetáculo, arranja para que não seja distraído, irritando-se com a presença de espectadores ao redor, cujos sinais de vida quebram a ilusão que alimenta de estar na imaginação como se estivesse na realidade, fundindo-se na forma, longe do ridículo do mundo: Guará assiste a filmes como quem faz amor.

Homem imaginário, Guará compõe diariamente as mais díspares personagens: existencialista, místico, sonhador, católico, terrorista, fauno, hindu, feiticeiro, nudista, vingador, solitário, fugitivo, marginal, trabalhador. Ele se lança, estático, em projetos de vida que se multiplicam sem nunca realizar-se, numa empresa próxima à de Baudelaire que, no entender de Sartre, avançava em ondas, sem um fim unificador. Como Guará mesmo formulou: “Minha vida é um filme seriado”. Seus atos – melhor dizendo, seus gestos amplos e indolentes – formam uma floresta virgem de projetos.

O que há de comum em todas as personificações aleatórias de Guará é que, seja onde for, ele está sempre em comércio com a carne humana: nunca em uma relação, nunca alimentando um desejo, mas alimentando-se da carne de seus semelhantes. Não da carne “sadia”, mas da carne “podre”. Seu personagem só pode exprimir-se eroticamente pela supressão do erotismo: estrangulando loiras, espancando jesuítas, prostitutas e homossexuais, chorando ou guiando cadáveres, violentando homens e mulheres, extorquindo e matando machos, amassando ou esmagando testículos, conspurcando ou mutilando órgãos humanos. Ao repudiar a humanidade, Guará assume a identidade do monstro – para melhor comer seus iguais.

Por sua visão original e suas opiniões radicais, Guará é freqüentemente criticado; ele concorda em primeira instância com o interlocutor, mas apenas para descarregar seu rancor na primeira oportunidade: não se defende; mas depois de legitimar a crítica, pulveriza o autor com evidências objetivas. Parece dizer: “É certo o que diz… Mas veja como você é um imbecil”. Guará forja sua segurança com golpes baixos, rendendo indiferença ao sangue dos outros. Seu temperamento esponjoso assimila a negação, mas só por um momento. O suficiente para que, recuperando a alegria, possa descontrair-se, integrando a contradição sem resolvê-la. Torna a Terra um deserto para realizar-se sem o concurso do mundo. Nada escapa de seu invólucro natural: guarda sua essência em plena troca; sempre aquém ou além do que o ocupa ou se ocupa, nada penetra e por nada é penetrado. O acúmulo dessa essência torna-o cada vez mais único e próximo das divindades.

Há, no entanto, o momento da recaída: quando está sendo filmado. A máquina que registra seus movimentos possui Guará enquanto ele representa; possuído pelo aparelho ao qual concede vida pelo olhar que lhe dirige, pode finalmente possuir a si mesmo. Beijando uma coadjuvante, Guará não lhe dá nada; um olhar direto para a câmera revela que ele está concentrado num outro objeto: o espectador ausente – ele mesmo. Guará olha para a objetiva/espelho à procura de Guará, para possuí-lo, para ser por ele possuído, através da objetiva/falo.

Ver a si próprio numa tela é uma experiência muito forte; Guará fica transtornado, quase não suporta, chega a abandonar o auditório. Neste estado, recupera a humanidade renegada. Mas se só por este momento de verdade é superior a todos os babacas que se anulam diante do mundo, não é superior ao mundo que pensa poder anular: o caráter imaginário de seus crimes bloqueia sua carreira. Os filmes que Guará imaginou não foram realizados; os filmes que realizou não foram terminados; os filmes que terminou não foram exibidos; os filmes exibidos saíram logo de cartaz. Narciso da noite, Guará padece a maldição do vampiro: mira-se no espelho sem encontrar seu reflexo. Suas fotos são freqüentemente publicadas sem legenda e seu nome passa despercebido entre os letreiros dos filmes que ajudou a dirigir. Mas os que o conhecem e amam não se desesperam. Sabem que um dia ele cometerá um crime perfeito. Não foi para isso, afinal, que se conservou intacto?

(São Paulo, 1983).

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